domingo, 12 de maio de 2013

García Lorca

SOLIDÃO INSEGURA (Noite)
Noite de flor fechada e veia oculta.
— Amêndoa sem coalhar de verde tato —
Noite cortada por demais depressa,
as folhas e as almas abalava.
Peixe mudo pela água de amplo som
lascivo se banhava no tremente,
luminoso marfim, recém-cortado
ao da lua chavelho adolescente.
E se o centauro canta nas ribeiras
deliciosa canção de trote e flecha
ondas recolham glaucas seus acentos
com uma dor de nardos sem limites.
Lira bailava na fingida curva,
alvo imóvel de imóvel geometria.
Dormem na escuridão olhos de lobo
renunciando ao sangue das ovelhas.
No lado oposto, Filomela canta,
umidades de heras e jacintos,
com  no ar uma queixa de Sul louco
sobre a da fonte flauta fixada.
Enquanto em meio do sombrio horror
fingindo cantos e aguardando medo
voz inquieta de náufrago soava.

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Lírios de espuma cem e cem estrelas
baixaram porque ondas não havia.
Seda em tambor fica reteso o mar,
enquanto Tetis canta e soa Zéfiro.
Palavras de cristal e brisa escura
redondas sim, os peixes mudos falam.
Academia no claustro dos íris
sob o êxtase denso e penetrável.
Chega bárbara ponte de delfins
onde a água se transforma em mariposas,
colar de pranto nas areias finas,
sem braços a voar à cordilheira.

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Rola gelada a lua, quando Vênus
com a cútis de sal na areia abria
brancas pupilas de inocentes conchas.
A noite cobre seus precisos rastros
com chapins feitos de fósforo e espuma.
Enquanto hirto gigante sem latido
raspa as espáduas tépidas sem vênera.
O céu exalta cicatriz borrosa,
vendo mudada sua carne em carne
que participa da funesta estrela
e o molusco de medo sem limite.

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Federico Garcia Lorca, Romanceiro Gitano e outros Poemas, trad. Oscar Mendes, Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1974, pp. 228-229



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