terça-feira, 11 de junho de 2013

Manuel António Pina

Como se desenha uma casa
Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente 
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente, 
a mãe para sempre morta.

Anoiteceu, apagamos a luz e, depois, 
como uma foto que se guarda na carteira,
 iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.

Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.

Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.

In Como se desenha uma casa, In Todas as Palavras Poesia reunida, 3a. ed, Porto, Assírio & Alvim, 2013, p. 347. 


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