sábado, 6 de julho de 2013

Antonio Carlos Villaça

Fui para Belo Horizonte de avião. 
Viagem tranquila por fora e tão agitada por dentro. 
Quem era eu, exatamente? 
Que destino seria o meu? 
Que me esperava, lá e depois? 
Valeria a pena viver?
Qual a significação real e última da vida humana? 
Que é que eu devia ser? 
Que é que eu seria? 
Que é que era? 
Não era nada. Tinha vinte e cinco anos. 
Não era nada. Nada. Nada. 
Um intelectual sem obra, um vazio, 
um incapaz de criar, 
um artista sem destino, 
perplexidade.
O avião sobrevoa as meigas serras. 
São meigas de longe. 
De perto, são ásperas. 
Eu olhava com olhinhos compridos 
o mundo lá embaixo, os verdes, 
matizes tão estranhos e diversos, 
os rios, a vida terrestre, o doce reino da terra, 
(...)

 Em mim, os ventos contraditórios 
semeavam a melancolia do exílio, 
e eu suspirava com saudades 
de um eu imaginário. 
Pensava em mim, meu destino, 
a curva de minha vida, 
a estranha parábola, 
que se ia tecendo devagarinho, 
sem que eu pudesse 
ou soubesse alterar- lhe o curso. 
Mas... em que direção, precisamente?
Voávamos para a cidade de Belo Horizonte, 
aeroporto de Pampulha. 
E eu, para onde voava eu, 
dentro da nave, do peixe alado 
a romper o céu, 
a cortar o fofo tecido das nuvens?
“A garupa da vaca era palustre e bela"... 
Palustre e bela. 
Bonito: a surpresa de unir bela e palustre. 
O inesperado: palustre e bela. 
Uma garupa de vaca. 
Você quer a vida medíocre? 
Vida medíocre, vida medíocre. 
Você quer a mediocridade? 
Você quer ser medíocre? 
Não quero a vida medíocre. 
Eu odeio os hábitos medíocres. 
Eu odeio conversa medíocre. 
Não quero a vida medíocre. 
Quero outra coisa, quero partir. 

Eu tenho vontade de partir. 
Eu sempre tive uma vontade de partir... 
Como eu gosto de andar de avião!... 
A gente parte o tempo todo, no avião. 
Em viagem de avião, 
a gente só chega quando chega mesmo: 
antes de chegar não chega... 
De navio — não sei, nunca viajei de navio. 
1967 — agora, já viajei. — 
a gente deve chegar sempre uma hora, 
ou duas, depois que parte, 
a gente chega logo que parte. 
A gente não parte durante a viagem toda, 
porque navio é estável, segurinho. 
Avião voa. 
Avião é partida sempre. 
Avião é pássaro e pássaro parte, 
pássaro não fica, flutua. 
Meu destino flutua. 

Eu quero partir, sempre quero partir. 
Eu nunca chego. 
Vida medíocre. 
(...)
Mas o que é que é ser medíocre? 
É ficar. 
É chegar e não partir. 
Toda estabilidade é medíocre. 
Toda fixação é medíocre. 
Só a partida não é medíocre. 
Todo compromisso esvazia. 
Só a aventura é casta. 
Não quero a rotina. 
Só quero o voo. 
Vida medíocre,
vida medíocre. 
O homem é uma paixão inútil. 
(...)

 Nuvens. Nuvem é ? 
Ficar... O que é ficar? 
Imortalidade, até quando? 
Tudo é provisório. 
O homem é uma paixão inútil. 
A história de toda vida é a história de um malogro. 
Tenho vontade de partir, sempre. 
Eu sempre quis partir. 
Fuga, fuga, fuga. 
Avião. Evasão. Tensão. Pressão. 
 Vontade de partir. 
Não quero cintos. 
Perdi a chave, para sempre. 
Serei sempre um homem sem chave, 
sem chaves e sem cinto, 
voando nas brancas nuvens.

... “e não sejamos fúnebres e espessos, 
sejamos gaios, todavia leves"...

Partir, mesmo quando se chega. 
Eu perdi a chave. Agora, vou para o hotel. 
Eu gosto de hotel. 
Quanto mais desconhecido, melhor. 
Amo as cidades desconhecidas. 
Não sei de exercício melhor 
do que descobrir uma cidade. 
Onde é a casa de Emílio Moura? 
Vou espiar as paredes que guardam Emílio Moura. 
E seu espelho.
 Onde, a de Henriqueta Lisboa, 
a da face lívida? 
Caminho na noite. 
Escuto os ruídos da noite.
Ruas recolhidas. 
(...)

 Eu, caminhante, sem chave e sem fé. 
A chave ficou na portaria do hotel...
Os homens são felizes em suas casas? 
 Haverá apenas uma ilusão? 
Ó caminhante sombrio e só!
Sempre sentiste o efêmero de tudo. 
Nunca pousaste, nem repousaste em nada. 
Nunca tiveste sossego. 
Foste sempre um peregrino em perigo. 
Vê, são as casas dos homens: 
estão dormindo, ou jogando, ou discutindo, 
ou simplesmente conversando...
(...)

Estão na sala ou no quarto, 
lendo ou amando, 
ou contando o seu dinheiro sob a luz esquiva,
escassa, que parcamente escoa de uma lâmpada 
frágil de abajur. 
São os homens, teus semelhantes, teus irmãos.
 Estão em casa, estão parados na noite. 
Aí estão, os homens. 
Suas casas começam a apagar-se, 
mergulham aos poucos na treva, 
o silêncio desce e envolve 
as casas tranquilas dos homens. 
Eles vão dormir, fatigados, em suas camas. 

Os cérebros estão cheios de vida vivida, 
e enquanto os homens dormem 
deitados em seus leitos limpos, 
no escuro, 
abraçados às suas castas mulheres,
ou solitários, 
a vida borbulha neles, 
os micróbios caminham dentro deles, 
invadem, conquistam, desfiguram,
constroem neles a morte. 

É de noite que se constrói o reino da morte nos homens. 
De dia, os homens se defendem. 
Mas a noite é propícia à morte. 
Os homens felizes estão morrendo devagar, 
em suas camas, onde um dia morrerão de todo e de súbito, 
envoltos num silêncio mais espesso do que este, 
da noite. 
Adeus, mundo. 
Adeus, amor. 
Adeus, infância. 
Adeus, morte...

(In O Nariz do Morto, Rio de Janeiro, Ed. Rocco, 1975, 2a. ed., pp. 182-185)

Obs.: Texto original em prosa.
Georges Braque

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