quinta-feira, 15 de agosto de 2013

José Jorge Letria

TEORIA GERAL DA CHUVA
A chuva não sabe enterrar os mortos
nem apagar a dor de quem os chora.
É torrencial e abrupta como a paixão
invernosa dos amantes sem remorso.
À noite oiço-a bater no telhado, sincopada,
com a sua presença felina e esquiva,
e cada gota é uma sílaba, um aviso,
um compasso triste de um alonga espera.
E a chuva vai e volta, herdeira
da pureza das fontes e da saudade das águas.
Vêm os mortos e lavam-se na chuva,
com os seus cântaros e as suas conchas,
com os seus crepes e com os seus murmúrios.
Por vezes, acende-se uma luz dentro da chuva
e a noite torna-se retangular e ostensiva,
sem nada que a comprometa com a ternura.
Escancara as portas e expulsa os intrusos.
Nunca procurei ninguém nos recantos da chuva,
nem nas folhas do chá, nem na insónia
das bebidas espessas e recônditas.
A chuva aprendeu a lavar as almas,
mas depressa se esqueceu do método e da hora,
porque é leviana e volátil como os corpos
que se entregam e se esgotam no furor da conquista.
Foi a chuva que me encheu a boca
de vocábulos lamacentos e brutais
que não são sequer dignos do leitor.


oo00oo

AS CIDADES CÚMPLICES
As cidades são a minha fuga, o meu refúgio,
o meu lugar de não ter nome, de não ter casa.
Fujo para as cidades para me perder de mim,
para só me encontrar nos livros que trago
dos esconderijos mais secretos das cidades.
As cidades são as minhas cúmplices. Elas sabem-no.
Tal como acontece com os livros,
sei que nem dez vidas me chegariam para as ler,
para as aprender, para me apaixonar por elas.
São amores fugazes, apressados, indolores.
Não deixam cicatrizes nem remorsos. Apagam-se devagar,
como os círculos ou as estrelas desenhadas a giz
no quadro mais negro do negrume da tristeza.
As cidades são o cálice minguado
em que entorno a luz em vez de vinho,
em que derramo a espuma em vez do néctar.
Retrato-as, retrato-me nelas vorazmente,
sempre a cores, junto das fontes, à porta das catedrais,
sobre as pontes, encostado às estátuas
que dão sombra à sonolência alada dos pombos doentes.
Eu nunca trago as cidades comigo.
Deixo nelas, como penhor da alma, o fio de uma saudade
que o tempo se encarrega de cortar
no ponto em que a ausência sabe a mágoa.

oo00oo

SOBRE OS POETAS QUE INVENTAM
Tenho na mesa uma estrela do mar
e na almofada uma rosa dos ventos.
Tudo me sabe a viagem, mesmo quando
permaneço imóvel, separando no cais
o centeio e o vinho, a pimenta e o ouro.
Não fui almirante de nenhuma armada
nem grumete de nenhum naufrágio;
fui a nau frágil da loucura das ondas,
o albatroz rendido ao chamamento do longe,
a sereia apodrecida nas redes da faina.
Nesse tempo em que eu era tudo e não era nada,
em que existia somente na perdição dos mapas,
vinham as viúvas chorar por mim
com lágrimas do tamanho de pérolas,
do tamanho de conchas no desespero das dunas.
Ai dos poetas que se alimentam apenas do vivido,
ai dos olhos vencidos pela evidência do real.
Eu sou dos que inventam, dos que sempre inventaram,
dos que não podem ser levados a sério,
mesmo quando vestem a roupagem da tristeza absoluta.
Um poeta não pode resumir-se ao que é tangível,
sob pena de ser pequeno de mais para caber num verso.

In Produto Interno Lírico, Lisboa: Visão-Frente e Verso, 2010, p.11-12, 24,33.

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