domingo, 22 de setembro de 2013

Antonio Gamoneda

Vi lavandas submersas na tigela do pranto e a visão ardeu em mim.

Para lá da chuva vi serpentes doentes — belas nas suas úlceras transparentes —, frutos ameaçados por espinhos e sombras, ervas animadas pelo orvalho. Vi um rouxinol agonizante e a sua garganta cheia de luz.

Sonho a existência e é um jardim torturado. Diante de mim passam mães encanecidas na vertigem.

O meu pensamento é anterior à eternidade, porém não existe eternidade. Gastei a minha juventude dian­te de um túmulo vazio, extenuei-me em perguntas que ainda percutem em mim como um cavalo que galopasse tristemente na memória.

Ainda giro dentro de mim embora saiba que vou cair no frio do meu próprio coração.

Assim é a velhice: claridade sem descanso.

[In Oração Fria, Antologia. Sel., trad., introd. e posf. de João Moita, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, p. 237]


Jiǎnshìzhé

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