sábado, 21 de setembro de 2013

Ana Luísa Amaral

SALOMÉ REVISITADA
Deixa-a lá dentro, cortada, na cozinha,
e traz-me só café. Pousa a bandeja
ali, e depois vai. Não quero o seu olhar:

recorda-me a prisão que ele habitou
(sem ser por mim) e a outra
em que eu morei, e onde fiquei,

lembrando o seu olhar. Bolo de figos
e de mel, conchas de som — mas não é
Salomão que eu sinto em sonhos

nesse corredor, mas Salomé, a outra,
a mesma que aqui está. E o seu olhar:
amputado de mim não pela espada,

mas por gume maior: o tempo
a insistir que eu nunca fui: multiplicada
pela sua íris. Agora, sai: é largo o corredor,

está certo o quarto, e eu decerto fiz bem.
Tão brilhante e tão quente. Como
sabe a vermelho este café —

In Vozes, São Paulo, Iluminuras, 2013, p. 31

GASTON BUSSIERE

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