sábado, 30 de novembro de 2013

Isabel Mendes Ferreira

e a montanha vai parindo ratos. brancos de névoa. inchados de adjectivos. cruzados de esteróides de madalenas e tibérios e salomés com pés de chumbo e flores mortas em vez de letras de flaubert. e assim os dias são carne para canhão e feitos de títulos apoetizados pela ganância do medo em hasta pública. são abraços senhores são nomeações fundeadas no artificioso ofício da sobrevivência de uns à custa de outros. e os ratos vão crescendo como falsos bois de ouro e cavalgam-nos pelas costas enquanto o coracão se esconde em torga e na fome do verbo orar. aleatórios os kants e todos os cânticos de baudelaire e mallarmé. aqui del rei que os ratos viram cavalos de tróia e a montanha passa a poeira. pobres e sem rosto e sem livro de horas somos a iguaria do abandono.

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e um dia o mar que foi origem da tua mão no meu ombro veio desfazer-se em olhos tardios. olhos com pestanas de sangue cognitivamente anunciadores da paralisia do futuro. um moinho de conflitos trágicos a ser excesso de fardo na divina ciência dos teus dedos indicadores do fim. e um dia a carne farisaica entrou ressurrecta no teu bolso de alquimista do vento. símbolo de um passado morto aos pés de uma escada descendente. que nunca subiu os passos dos amantes . era a excelência dionísica de um seio novo a amamentar a imortalidade. mesmo que por um só momento. foi assim o mar que devolvemos ao fundo de todos os fundos. de onde se volta nu e degolado. sem destino outro que não seja a morte. e um dia o mar efémero dos teus olhos fez-se eterno na terra do nunca. lá onde o sagrado é origem e verbo irmão da memória amordaçada. um fósforo. uma campânula. uma ressonância madura de monstros e de anjos. lá onde os pássaros explodem serpentinamente. e tu não me vês.

© Isabel Mendes Ferreira - Com permissão da autora.

Panayotis Cacoyannis

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