sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Tahar Ben Jelloun

Sou um menino que zomba da inocência

Fui nutrido com o leite da esfinge
e cedo carreguei uma aranha no fígado em voz baixa

Gerei a cidade das trevas humilhadas
e voltado para mim mesmo
serpente sem cabeça, fiel ao sol

Provoquei o astro obsceno do mestre e do Imã
e o maculei de sangue no pátio dos milagres
o astro das areias que se apagou pela manhã
e me deparei com o Livro ao contrário

Tomei o trem para fomentar as turvações na água
estagnada
do sono ancestral
sacudi os carvalhos
e vi a morte rir escondido diante do espetáculo das cabeças
que caíam
Minha voz rompida parava no esboço desesperado da ausência 
palavra anulada
quando nossas mães nos carregavam nas costas 
nos campos 
e até o cemitério
nossas mães resignadas procuravam em nós a infância

Nus em nossa solidão 
fazíamos buracos no asfalto
até o dia em que o tempo parou na ponta do nosso despertar.

In Poetas do Mundo - As cicatrizes do Atlas, seleção, tradução e introdução de Cláudia Falluh Balduino Ferreira, Brasília, Ed. UNB, 2003, pp. 44-45. 


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