terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Ana Luísa Amaral

ESPADAS E ALGUNS MURMÚRIOS
As poucas vezes que te permito a entrada são vezes de fascínio e penitência. Abrir-te a porta, a alegria dorida da chegada, no mesmo instante arrepender-me do meu gesto, da minha cordialidade. O resto dessas vezes é quando chega a pergunta inevitável: o porquê de te ter permitido. Afasto-a, se consigo, mas quando não consigo, os ventos que a limitam não são zéfiros. A pergunta forma-se a partir de tornados a tomar-me, e o que me custa mais (mais repetido) é sempre a mesma cara, o mesmo olhar por fora - o ficado por ver: rompido, amachucado, milionésimas partes de mim mesma. As poucas vezes que te permito são vezes frágeis, são vezes de papel.

É todavia nessas alturas que mais me crio um espaço. Deixo-te entrar juntamente com música no corpo e nos ouvidos, olhando sem olhar coisas sem tempo. Milionésimas partes de ti que trago sempre hibernadas, acordo-as nessa altura. Junto-as com um cuidado de ourives, um cuidado de mãe coleccionando memórias. E só depois que posso permitir-te: quando o teu riso inteiro, o corpo inteiro, algum pequeno pormenor de braço ou fala passa a fazer sentido por estar na totalidade. Milionésimas partes reunidas todas na partitura.

[Excerto de Ara, Porto, Sextante Editora, 2013, p. 17].



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