quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Jorge de Lima

SABEREIS QUE CORRI ATRÁS DA ESTRELA
Sabereis que corri atrás da estrela como um Mago,
tropeçando nas cisternas e nos montes;
e li as inscrições das pedras dos antigos rios;
e consultei os áugures contra a vossa recomendação;
e aprendi a significação do meu sonho
porque os céus se desenrolaram como um livro santo.
Por isso chegai homens e ouvi;
e moças em flor escutai;
e povos atendei;
ouça a terra com todos os seus peixes e suas aves e seus
[luzeiros
e tudo o que ela produz:
quem subiu primeiro para a Arca foi a mulher de Noé
que levou casais de flores e de abelhas, e bordou quarenta dias e quarenta noites o catálogo geral
[da posteridade una;
as filhas da mulher salva das águas
conceberam debaixo dos capinzais do rio; e de raça de Esaú
houve mulheres lindas cabeludas nos seios, nos sexos e nas
[axilas
para que se resguardassem os lugares preferidos pela per-
[petuação;
e por isso a mulher será a última a expirar no último dia
e fechar as longas pestanas dos seus olhos amados;
as escravas egípcias e Sara, Tamar e a mulher de Lot e a
[mulher de Isaac
e a filha de Batuel e a nora de Abimelec e a viúva de Elon
[a de luto recente
nunca ficaram estéreis e pariram gerações como as estrelas
[no céu;
a filha mais nova de Labão era belíssima e Dina filha de
[Jacó
foi violada para perpetuar o exemplo dos violadores;
e aí termina o catálogo geral de Jacó e de Esaú; mas a
[mulher de Noé
que teceu quarenta dias e quarenta noites chuvosos, disse
que Onã é maldito porque se rebelou contra a lei de So-
[doma foi queimada
porque a mulher tinha sido demitida;
e eis que as mulheres escravas sempre ficaram rainhas,
e sempre os cânticos da terra acumulados no mundo de-
[flagraram na boca
dos moços denominados poetas;
e as posteriores gerações conheceram Judite que levou uma
[cabeça decepada
e segurando-a nos cabelos descobriu com a cabeça imolada
os inimigos da espécie imortal;
e do sangue de Judite um Rei assinou poemas da filha de
[Faraó e lhe deu escravas
já fecundadas pelo sangue de Deus;
e as filhas de Deus se queimaram de sol, e para diferir dos
[desertos de
areia ficaram negras para afastar o sol;
e passaram por vontade de Deus a outros mares e a outras
[ilhas
onde depois o Filho do Pai baixou e sagrou a aliança
com os povos amarelos, e com os povos dos gelos, e com os
[povos das montanhas
e com os povos mais distantes onde a Arca boiou.
A mulher de Noé abriu então a portinhola e soltou a flor
[de longo pistilo
e a açucena ainda virgem do ferrão das abelhas;
e a longa ventania de Deus tangeu pólen
desde o monte Sinai ao pomar de Canaã:
e houve jardins no mundo para as musas colherem;
e houve luares na terra para atrair os poetas;
e a geração de Judite aparece em Herodíades para
[inverter a
divina façanha e perpetuar os dois ramos da árvore do
[paraíso.
Então, o Senhor falou às gerações dizendo:
Cortai os ramos da árvore e construí o meu Tabernáculo
e as tábuas da tenda e o pau do altar; mas do lado do vento
protegereis o átrio com a madeira da árvore;
e depois de purificado o Tabernáculo,
aí uniremos as gerações: cada mulher com o oficiante que
[escolher;
então a mulher mais nova dessa geração acampou com o
[amado
nas margens do rio grande, e depois acampou nas margens
[do
grande lago, e depois acampou nas margens do grande mar;
e da banda do aquilão nasceu a geração das mulheres deno-
[minadas sabinas que foram violadas
para perpetuar outra vez a espécie das que são dominadas
[com força;
mas apareceu entre as sabinas um mancebo donzel
que era muito mais débil que elas, mas sabia poemas e
[usava capas belíssimas;
e nasceu da união uma menina franzina de coxas unidas e
[cintura esbelta
como nunca houve na raça humana da terra:
era a guerreira cuja bisneta brigou com os povos da ilha
[e foi queimada como feiticeira;
e porque era feiticeira sagrada,
das cinzas brotou uma santa para perpetuar as gerações
[de Deus;
e as gerações de Deus subiram para o plano divino;
e do plano divino desceram signos que os homens do
[tabernáculo entendem
 para se comunicarem entre si até a consumação dos séculos,
quando a mulher será a última a cerrar os longos cílios
 para abri-los de novo no começo da Vida.

[In Antologia Poética, Rio de Janeiro: Ed. Sabiá, 1969, pp85-88.]


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