quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Eucanaã Ferraz

Pílades e Orestes
Como se caminhassem sobre a pele de uma praia,
no ladrilho dessa pele, podiam ouvir a respiração
repetida na respiração do outro como num búzio
o búzio uma só flauta onde nascia o vento

na voz vizinha que respondia apontando o peito
que o acolhera confundidos na mesma água
que lhes subia pela cintura num tempo demorado,
nem sol nem lua, somente essa quadra, quando

o pensamento desviava de crimes, imolações,
moedas, suas mãos singravam cristais, estrelas,
antes de serem órfãs, livres do medo, rosas
de plástico, abelhas apenas, um

do outro o amigo esperado o oráculo
a cordilheira o bosque a noz o raio estragados
com o doce de se amarem sem que se dissessem,
mas, ali, ombro a ombro, nada havia além deles;

o mundo interrompe suas rodas sem penhor
sem mapas sem o sangue de laços e guerras,
só o grito noturno dos aviões entrechocando-se
no ar sonhar amar não amar saber não saber.

[In Sentimental, São Paulo, Companhia das Letras, 2012, p. 65]



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