quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

W. H. Auden

HERMAN MELVILLE
(A Lincoln Kirstein)

Perto do fim velejou rumo a uma extraordinária mansuetude
E ancorou em sua própria casa e chegou até a esposa
E vogou dentro do golfo da mão dela
Que atravessava todas as manhãs para ir a um escritório
Como se a sua ocupação fosse outra ilha.

A bondade existia: era esse o saber novo.
Seu terror teve de arder até esgotar-se
Para ele poder vê-la; mas fora o temporal que o arrastara
Além do cabo Horn do sucesso perceptível
Que brada: “Este rochedo é o Éden. Naufragai aqui.”

Ensurdeceu-o com trovões, porém; com raios confundiu-o:
— O herói maniaco a buscar, como se joia,
O raro monstro ambíguo que o sexo lhe arruinara,
Ódio por ódio terminando em grito,
O inexplicado sobrevivente atalhando o pesadelo —
Tudo isto era intrincado e fácil; a verdade era bem simples.

O Mal é pouco aparatoso e sempre humano
E partilha o nosso leito e come à nossa mesa,
E somos apresentados à Bondade todo dia,
Mesmo em salas de visita entre uma turba de enganos;
Tem um nome, algo assim como Billy, e é quase perfeito,
Mas ostenta uma gagueira como se fosse enfeite;
E toda vez que se encontram o mesmo tem de acontecer;
É o Mal que qual amante se vê só e sem socorro
E lhe cumpre puxar briga e dela sair bem,
E ambos claramente se destroem aos nossos olhos.

Pois agora ele estava desperto e bem sabia
Que ninguém é poupado nunca, exceto em sonhos.
Mas havia algo mais que o pesadelo distorcera —
Mesmo o castigo era humano e uma forma de amor:
A tormenta a rugir fora a presença do seu pai
E no peito do pai havia sido carregado o tempo todo.

O pai agora o pôs no chão, com jeito, e foi-se embora.
Ele ficou de pé na exígua sacada, ouvido à escuta:
Como na infância, os astros cantavam lá de cima
“Tudo é vaidade, tudo’’, mas não era a mesma coisa;
Pois agora as palavras desciam como a calma das montanhas —
— Nathaniel havia sido tímido porque o seu amor era egoísta —
Renascido, gritou, de exultação rendido:
“A Divindade partiu-se como um pão. Nós somos os pedaços.”

E sentou-se à escrivaninha e escreveu um conto.
(j. P.P.)

[In Poemas, Seleção de João Moura Jr., Tradução e Introdução: José Paulo Paes e João Moura Jr., São Paulo, Companhia das Letras, 1986, pp. 83-85]

OLIVER RAY



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