sábado, 4 de janeiro de 2014

Renata Pallottini

ROMÂNICO II
Sozinho na grande abadia 
o santo seco e exato 
como uma pedra no alto 
do monte que ali havia.
Pedra que alguém depois tomou 
na sua mão curiosa e cálida 
dizendo: que esta pedra fale.
E ano após ano, num diálogo, 
foi recortando e destruindo
o que era a mais e não era santo, 
o que não era paixão e sangue.
Até que deixou o osso da pedra, 
o corpo seco que ali já havia, 
o santo, com seus olhos de pranto, 
com sua cara camadas de lágrimas, 
sozinho e seco na grande abadia
a chorar por mim, 
por tudo o que há, 
por tudo o que houver, pelo que não se diz, 
a chorar por nós, pelo que Deus não sabe, 
por aquilo que Deus não choraria.
Pela blasfêmia e pela igreja,
pelo frio e pela covardia,
pelas mãos trêmulas de quem o busca
e pelos que jamais o buscariam.
A chorar como chorou há muito
quando ainda era pedra a sua cara triste 
e sobre a pedra a ira de Deus 
chovia.
[In Obra Poética,  São Paulo, Editora Hucitec, 1995, p. 161]


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