domingo, 9 de fevereiro de 2014

Luís Filipe Castro Mendes

NOCTURNOS
1.
(Sobre um poema de Nuno Júdice) 
Havia luz demais no teu poema:
por isso esperámos pela noite. Escureceu na pequena
estação sobre a praia, mas o teu poema
continuava a brilhar no meio das notícias
levíssimas e das palavras que trocámos
por dentro da tarde. Ficámos assim muito tempo.

Nenhum de nós saberia dizer o que esperámos.
Apenas as palavras começaram a afastar-se,
para nós entendermos. Como a luz.

2.
(A partir de uma estampa chinesa)
I
O pavilhão desenhado no jardim
não é matéria de sonho:
quem o habita? quem
dentro da linha ténue
das paredes
lhe recolhe o fruto
desolado?

II
Haverá um centro,
um motor de harmonia,
uma fábrica de sonhos
por perceber?
Será a linha do horizonte aquela margem do rio
que os teus passos não podem conhecer?
III
Se pudesses merecer
toda a indiferença da terra
terias nestas pedras, nesta água
o teu lugar.
O pavilhão não se acende no jardim:
vibra na paisagem
atrás da luz.

[In O jogo de fazer versos, In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 2001, pp. 266-267]





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