terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Maria Lúcia Dal Farra

CUPIDO
O bibelô desperta na sala deserta.
Os pés da cadeira tropeçam nessa evidência
transportam minha alma para um tempo de penúrias.
Odores litúrgicos, paisagem serrana, leque espanhol.
O bronze do cinzeiro se espalha e funde tudo:
sou atingida!
Inventario os móveis. Aqui um armário
ali o oratório, oh Santo António,
me socorre! Que salmo devo invocar?
O amor é uma coisa estúpida (pensa, carente,
a Karenina, a Ana que muito amou)
mas salva os homens e alguém me aguarda
no quarto contíguo.
O gato salta por cima do meu sobressalto
e a pequena estátua recolhe ao arco sua flecha.
Tudo se aquieta na sala aberta.

AMOR DIÁRIO
Vocábulos travados,
estes gestos ausentes
nada são (enfim)
para o roteiro da noite.

Transitam pelo espaço inútil
e rodam
(tontos)
estourando no chão
como cebolas.
Choramos ou rimos —
efeitos visuais que exalam
ao topar o solo.

[In Livro de Auras, São Paulo, Iluminuras, 1994, pp. 56-57].

Oratório para santo Antonio de rosas de alumínio
by Flávio Ferraz Lima

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