domingo, 9 de março de 2014

Ingeborg Bachmann

DESPRENDE-TE, CORAÇÃO
Desprende-te, coração, da árvore do tempo,
soltai-vos folhas, dos ramos esfriados,
outrora abraçados pelo sol,
soltai-vos como lágrimas de olhos largos de longes.

Esvoaça ainda a madeixa dias inteiros ao vento
na fronte tisnada do deus do campo,
sob a camisa aperta o punho
já a ferida aberta.

Por isso resiste, quando o dorso macio das nuvens voltar a curvar-se para ti,
não te iludas se o Himeto te encher
de novo os favos.

De pouco vale ao lavrador uma erva na seca,
de pouco um verão, face à nossa grande estirpe.

E que testemunha afinal o teu coração?
Entre ontem e amanhã balança,
silencioso e estranho
e o seu bater
é já a sua queda para fora do tempo.

[In O tempo aprazado  (Últimos Poemas 1957-1967) tradução de Judite Berkemeier e João Barrento, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992].

Laura Knight

Nenhum comentário:

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...