domingo, 2 de março de 2014

Maria Gabriela Llansol

EXCERTO DE "CAUSA AMANTE"
VI —
Úrsula encontrou à entrada da porta uma mulher com uma cana na mão. Suspeitou que ela teria meia-idade, pois não lhe via o rosto coberto por um chapéu descido; observou-lhe as mãos queimadas, de quem frequentes vezes trabalha, e adormece ao sol.
vim a este país para reconhecer o que escrevo, e por onde andou Ana de Penalosa; faço à mulher a primeira pergunta, a que a mesma pergunta deve suceder-se, por não obter resposta; eu não me sinto a viver ao mesmo diapasão que este país, nem nesta região extensa com terras em que crescem sobreiros ou azinheiras, e onde podem pastar porcos; mas devo continuar a perguntar à mulher, único ser falante que encontrei nestes montes, o que ela ouviu dizer sobre Ana de Penalosa; nada me revela por meio de gestos, e o rosto quase caído sobre o peito, não se levanta; usa chapéu para armar a cabeça.

se a mulher fosse Ana de Penalosa, eu contar-lhe-ia até que ponto as beguinas perturbadas a esperam; sento-me à sua frente como só existisse a luz directa iluminando-nos; desço as pálpebras ao elevar o pensamento para a parede de cal; antes de voltar a mover-me pela palavra, reparo que a minha língua nem coincide com este país, nem com a sua linguagem; mas a mão de Ana de Penalosa, quando ela ma estende, coincide com a minha; trocamos o lugar e, na invocação que dirigimos uma à outra, fico a saber quem é a mulher, e quem eu não sou ainda.

continuo a não encontrar Ana de Penalosa que me deixou quase sozinha neste país que infunde temor; muitas das beguinas tornaram-se aves migratórias e eu, para recolher a experiência da transformação vegetal que sofreu o rei, não fui das que partiu com elas; quando subi ao mirante da casa que deve orientar-me, vi o último bando de aves pousado nas figueiras e nas alfarrobeiras, com as amendoeiras dispersas ao meio; quando se aquietaram nas diferentes árvores para passar a noite, escutei o som deste crepúsculo que se estendia pelas azinhagas próximas; como sucede quando alguém que eu amo está para partir, eu sentia-me já no deserto. Fosse de noite, ou já claro, o calor e a imobilidade eram os mesmos; tive receio de que dom arbusto, se naquele jardim estivesse plantado, morresse na terra, ou vogasse à deriva do que, sem mutação, estava a passar-se; o adeus das aves, e o seu regresso, davam um certo sentido àqueles campos em que a escrita cultivada pelas beguinas se tornara seca e atonal.

não quis ficar fora do círculo das beguinas, neste país onde só cresciam belezas excluídas. Tive o pensamento cruel de preparar armadilhas às aves que se dispunham a partir; mas lembrei-me da alegria de Eleanora, Margarida, Eulália, Alice, Marta, Clara Serena, da própria rapariga que temia a impostura da língua.

De manhã, sem ter dormido, reparei, perto de mim, no vulto enraizado de dom arbusto e deitei-lhe água, que tirei do poço; no espaço, ainda agitado pelo voo, as aves migratórias tinham deixado cair grandes ovos que, sem quebrar-se, pousaram na terra, e se transformaram nesta paisagem em que tinha vivido Comuns.

no regresso, ensinou-me a romper o silêncio, ou a falar nele; a ausência de Ana de Penalosa fez-me ver até que ponto uma paisagem se pronuncia sobre outra paisagem; só a névoa do Brabante me levaria a contar  como os arbustos desse país litoral ardem.

não consigo chegar a compreender a natureza das alterações da percepção de Sebastião, o dom, mergulhado no solo, ou na névoa; mas ele, dom arbusto, já se adaptou a esta visão singular das folhas que tinha encontrado no jardim de Psyché.

[In Causa Amante, Lisboa: Relógio D´Água, 1994, pp. 151-153]

N.B.: Pela dificuldade de reprodução, não se respeita aqui a disposição gráfica original do texto.
John W. Waterhouse



Nenhum comentário: