quarta-feira, 2 de abril de 2014

Murilo Mendes

A GRANDE CEIA
Eu quero dar uma grande ceia aos deserdados — aos tímidos — aos desconsolados — aos oprimidos — aos humildes — aos doentes incuráveis de amor — às prostitutas que olham pela rótula, sem coragem de chamar os clientes.

Eu quero dar uma grande ceia aos que enxergam demais — aos desesperados com esperança — aos rebelados contra Deus, mais próximos a mim do que os indiferentes.

Eu quero dar uma grande ceia aos poetas que não sabem se exprimir — aos amantes reciprocamente saciados — aos covardes que não podem se matar.

Eu quero dar uma grande ceia aos desertores da lei humana — aos que apenas conseguem destruir — aos que receberam o inferno por herança.

Servi-vos de mim, derrotados. Eu vos considerarei a cada um como uma parte dispersada de mim mesmo. Presidirei vossas angústias e miséria:. Retalhai-me, dividi meu coração em pedaços; então se terá cumprido um claro mistério de Deus.

[In Poesia Completa e Prosa, Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1994, p. 762].


Andre Derain



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