sábado, 19 de abril de 2014

Porfírio Al Brandão

u m   p a n o   i m e r s o   n a   a g o n i a 

afastem de mim o ouro azedo das árvores
estou farto
este cão negro persegue-me
e gastei toda a clorofila em sonhos de segunda categoria

[corvos em debandada]

ouço agora a purulência de intempéries constrangidas
os cotovelos livres na angústia
o mamilo de ferro na tábua
por passatempo esvaziar as pombas vezes sem conta
recortar a cidade o céu o mundo

o amor é uma transferência invectivada
mesmo que tardia – a esferográfica sabe disso – lesse
o condenado
cristalizando-se na redacção
onde aflorar ou desnudar é estranheza

a substância que delego em mim
corrosiva a fases de beber fisionomias
sem a nitidez do sexo
difere no tempo pelo grau de apodrecimento

o esqueleto apodera-se do absurdo
como de carne se tratasse – é a fome
dum espírito descarnado

: limpo os ossos
sopro as vértebras fulgurantes no domínio soterrado

a pele empedrada exerce impensável bandeira no que digo
bêbado de esquecimento
um deserto solitário mas não diminuído
antes um terraço
coroa da penetração dos instantes neste meu sangue novo
joelhos de água nos vossos ouvidos

simule ou não o céu com ruínas das abóbadas coronárias
medindo as correias
e a publicidade cega doutros tecidos
há um cofre e um poço – um poço metido dentro dum cofre
em vez dum cofre mergulhado no poço – há raízes
escuridão húmida onde medram as entranhas
noutra dimensão

homogeneizar luz é veneno
anula círculos desavindos por motor natural da porosidade
ruídos da linha férrea nos diálogos
desprende inversões que levam a um aposentamento progressivo

antes o rugido longínquo das trevas que é meu pai
expandir os sentidos para além da estratificação dos pesadelos
ir à cópula do inimaginável ou fingir sentir o advir do devir
expressão da carne mastigada pelos vermes
auspiciosos inquilinos do matadouro

escrevo esperando a reverberação óssea das metáforas
a serem excretadas pela enigmática abstracção

escrevo como se recuperasse eu o vermelho do sangue
como se espumejassem renascidas as vísceras em palpitação
escrevo espacejando os órgãos transmutados
contando com cicatrizes na via-láctea
cinzas de folhas assassinadas

[âmago zoológico]

concreto o fosso intransponível da linguagem
contra o tronco ideológico do polvo
porque a alegoria é das feras despidas de sua verdadeira carne
esfomeadas por remendarem-se a si mesmas
com carnes de herbívoros e moluscos

procuro um hiato onde caiba sem adjectivos
onde possa alinhar minhas raízes vertebrais
configurar consciência no húmus que sou
com toda a aridez possível
e agrafos na língua

por vezes parece que tenho banhistas no palato
apesar da secura e da vulnerabilidade com que falo
faz-me lembrar as praias onde medi o tesão das ondas
esquecendo-me da vegetação do texto

mas também a areia apodrece como as palavras
à luz da candeia pela qual dançam as aparências

: o túmulo é um quarto para roubar ar
– escasso –
uma passagem onde se escorraça o passado

[retracção carburante]

aqui os espelhos são insuportáveis
impregnam a identidade
compelem à repulsa perante a duplicidade da plataforma
porque no rebordo do principal mecanismo
rir é doença

só os túneis resistem à realidade frigorífica
neles sacudo as membranas ilegíveis
filio-me ao obscurantismo doloroso da escrita

[borrasca]

vejo com as mucosas – um jeito intransmissível
de regar o torso dos contextos – o muco
traz luz quando pinga no que
nem ouso tocar

apesar de me assoar a um pano que tresanda a agonia
peço-vos
não tenham medo da carne musical
toda a palavra é
uma glândula na iminência dos sentidos

Fonte: website do autor

Audrey Phillips



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