segunda-feira, 23 de junho de 2014

Emily Dickinson

Foi como um Furacão aberto ao meio
Que mais e mais se aproximando 
Estreitasse o seu Círculo de fúria 
Até que uma Aflição

Pôs-se fria a brincar com o arremate
De uma Bainha imaginária -
E algo partiu-se - e às cegas tu caíste -
E acordaste afinal -

Foi como se um Duende com uma Escala
Todas as Horas conferisse -
Até que o teu Segundo sem remédio
Foi aos seus Pés cair -

E nem mais os teus Nervos te acudiam -
Tua razão abandonou-te -
E Deus então - lembrou-se - aí o Demo
Te soltou - e se foi -

Como se o frio dos Porões deixando
Para cumprir tua Sentença
Do conforto da Dúvida saísses
Para a Forca - e o Além -

E quando um Véu te costurava os olhos
Viesse alguém bradar - “Já chega!”
Que Tortura maior então seria -
Perecer - ou viver?

[In A branca voz da solidão, tradução de José Lira, São Paulo: Iluminuras, 2011, p. 223].



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