domingo, 22 de junho de 2014

Stefan Zweig

O MUNDO QUE EU VI - Excerto
Pessoas dessa espécie, tão rara, foram de grande vantagem para um principiante; mas ainda me faltava receber o ensinamento decisivo, o ensinamento que deveria servir para a vida inteira e que me foi dado, como um presente, pelo acaso. Em casa de Verhaeren travamos discussões com um historiador da arte, que declarou haver terminado a época da grande plástica e da pintura. Protestei energicamente. Perguntei se ainda não existia Rodin, que como plástico não era menor do que os grandes do passado. Principiei a enumerar as suas obras e, como sempre quando alguém combate uma opinião, tornei-me quase colérico. Verhaeren sorria consigo mesmo. Por fim disse: « Quem gosta tanto de Rodin deveria conhecê-lo pessoalmente. Amanhã irei ao seu atelier. Se quiseres, poderás ir comigo ».

Está claro que eu haveria de querer. Não pude dormir de alegria. Mas em casa de Rodin fiquei sem poder falar. Nem pude dirigir-lhe a palavra e fiquei entre as estátuas corno uma delas. Parece que esse meu embaraço agradou a Rodin, pois à despedida o bom velho me perguntou se eu queria ver o seu verdadeiro atelier, em Meudon, e convidou-me mesmo para almoçar. Eu tivera o primeiro ensinamento, a saber, que os grandes homens são sempre os mais bondosos.

O segundo foi que eles quase sempre são em sua vida os mais simples. Em casa desse homem, cuja fama enchia o mundo, cujas obras estavam presentes, linha por linha, à nossa geração, a comida era tão simples como em casa dum camponês de condição média: uma carne substancial e boa, algumas azeitonas, frutas em abundância e, além disso, um saboroso vinho nacional. Isso deu-me mais ânimo, por fim eu já falava com desembaraço, como se esse velho e sua esposa fossem meus íntimos desde muitos anos.

Após a refeição fomos ao atelier. Era uma grande sala em que estavam as mais importantes de suas obras em gesso; entre elas viam-se também centenas de preciosos pequenos estudos — uma mão, um braço, uma crina de cavalo, uma orelha de mulher, a maior parte delas apenas em gesso; ainda hoje conservo perfeitamente a lembrança de alguns desses esboços feitos apenas para exercício, e poderia falar durante horas sobre a hora que passei naquele atelier. Por fim, o mestre me levou para junto dum pedestal sobre o qual estava a sua última obra, coberta com panos úmidos, uma estátua de mulher. Com suas mãos pesadas e enrugadas, de camponês, retirou os panos e recuou. Sem querer soltei um «admirável! » e imediatamente me envergonhei dessa banalidade. Mas com a serena objetividade, em que não poderia encontrar-se uma partícula de vaidade, contemplando sua obra, murmurou ele: « De fato ». Depois hesitou. « Apenas ali na espádua... um momento! » Sacou do casaco, vestiu a blusa branca, pegou uma espátula e com um movimento magistral alisou a pele macia da espádua daquela mulher, .que parecia estar viva e respirar. Novamente recuou. « E agora aqui », murmurou ele. Outra vez, com um diminuto pormenor, fora aumentado o efeito. Depois não falou mais. Avançou e recuou, olhou a estátua num espelho, murmurou e proferiu sons ininteligiveis, modificou, corrigiu. Seus olhos, que à mesa se mostravam afáveis e distraídos, nesse momento tremiam sob a influência de luzes estranhas, parecia que ele se tornara mais alto e mais moço. Trabalhou, trabalhou, trabalhou com toda a diligência e força de seu corpo vigoroso e pesado; toda vez que energicamente avançava ou recuava, o assoalho estalava. Mas ele não ouvia os estalos. Não notava que atrás dele estava, sem dizer palavra, um jovem embevecido, ditoso por poder ver um mestre daqueles em seu trabalho. Ele se esquecera inteiramente de mim. Para ele eu não estava ali. Para ele ali só estava a estátua, a obra e, por trás dela, invisivelmente, a visão da perfeição absoluta.

Passou-se um quarto de hora, meia hora; já não sei quanto tempo se passou. Os grandes momentos estão sempre fora do tempo. Rodin estava tão absorto, tão engolfado em seu trabalho que nem um trovão o teria distraído dele. Seus movimentos iam-se tornando cada vez mais violentos, quase coléricos; ele fora tomado de uma espécie de exaltação ou de ebriedade, trabalhava cada vez mais depressa. Depois as mãos se tornaram hesitantes. Pareciam haver reconhecido que nada mais lhes restava fazer. Ele recuou uma, duas, três vezes, sem modificar nada mais. Depois murmurou algumas palavras, colocou os panos em torno da estátua tão carinhosamente como alguém põe um chale sobre os ombros da mulher amada. Respirou profundamente e aliviado. Seu corpo pareceu tornar-se de novo mais pesado. O fogo extinguira-se. Deu-se então o que eu ignorava, deu-se o grande ensinamento. Rodin despiu a blusa, vestiu o casaco e já ia sair. Nessa hora de extrema concentração esquecera-se inteiramente de mim. Já não sabia que um jovem, que ele próprio levara ao atelier para lhe mostrar suas obras, estivera ali atrás dele, com a respiração opressa, imóvel como as estátuas.

Encaminhou-se para a porta; no momento em que ia fechá-la deu comigo e fitou-me quase zangado: quem era esse jovem desconhecido que havia entrado às escondidas no seu atelier? Mas imediatamente se lembrou de tudo e quase envergonhado se dirigiu para mim: « Desculpe-me », disse ele, mas eu não o deixei continuar a falar e peguei agradecido a sua mão e tive vontade de beijá-la. Eu acabara de ver revelado o eterno segredo de toda grande arte, verdadeiramente de toda produção de valor nesse mundo: concentração, reunião de todas as forças, de todos os sentidos, empolgamento do artista todo. Eu aprendera alguma coisa para o resto de minha vida.

[In O mundo que eu vi (minhas memórias), Tradução de Odilon Gallotti, Rio de Janeiro, Guanabara, 1944, pp. 138-140].

Um comentário:

Salomão Rovedo disse...

Eu estava pronto pra copiar esse excelente texto do meu livro, exatamente como está aqui, portanto, botei no g+. Abrs.