quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Eduardo Espina

CARAVAGGIO, VIGÍLIA FINAL
I

A luz ouve o que necessita,
habitar onde não possui tudo.
A ameixeira volta-se para vê-la
tornar-se salutar avalanche.

II

Falando no semelhante,
algo viscoso e torrencial.
Quanto menos olhava a
soma de fumo no obus,
mais tempo teria para tantas
coisas que se fazem no silêncio.
Quanta calma de bétulas,
quanto vento que ninguém vê.
A metáfora do estrangeiro
encontrava a Terra no
terraço, errava plena.
E a posteridade aguardando.

III

Ao longe só restava o
anjo que cabia na mandíbula
velocíssima do lambari.
Embora soubesse saber, a
névoa do pântano lhe tocou
o ocultismo com que do
gelo numeroso passar ao
centauro que por bisão para.
Respirável a raiz do figo,
feliz como recém-chegado:
Filodemo entre as flores
e quanto de alforge, pois sim.

IV

O vazio do bosque no
verão, mas já não importa.
Morreu com os olhos abertos
para que as imagens
seguissem saindo.


[In Jardim de Camalões - A poesia neobarroca na América Latina, organização, seleção e notas Cláudio Daniel, tradução Cláudio Daniel, Luiz Roberto Guedes, Glauco Mattoso, São Paulo, Iluminuras, 2004, p. 63].



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