sábado, 27 de setembro de 2014

Isabel Mendes Ferreira

O CONTO DO CANSAÇO

"Só vejo pegadas, ruínas, sepulturas, a ferrugem, o musgo e o verdete... lembranças que o Tempo deixa sobre as coisas." 
Teixeira de Pascoaes

o Fernando está longe, também eu. também a memória. também o fogo. também aquele pôr-do-sol rente aos penedos sobre o mar dos sentidos, 
estou para além da luz. concha decepada pelas tempestades de abril não sei de nenhum abrigo, o Fernando escreveu-me ontem, uma carta em branco, um título para a saudade, uma ponte no ar rasgando o futuro em nuvens de sílabas cinzentas, carregadas de renúncia.
era sábado à tarde, uma melancolia doce descia para o cais e do cais vinha o cheiro das sardinhas, das redes e dos barcos, dos homens maduros com palavrões dourados na ponta dos bigodes ruivos, entrei numa tabacaria escura onde uma viúva atiradiça vendia selos, fósforos, totobolas, rifas, livros usados, marcas de cuspo nas folhas dobradas e papel de carta.
comprei um bloco, papel azul com riscas vermelhas, uma relíquia esquecida numa prateleira suja. um sorriso de boa-tarde e saí para a rua. fui andando perdida e leve. quando o ar se tornou mais denso sentei-me num banco de jardim.

os jardins de sábado têm um gosto de paraíso perdido. como uma catedral sem paredes onde os anjos tomam banho e brincam com as pombas, e quis responder ao Fernando, àquela carta sem palavras.
mas só me lembrei da música de Stravinsky. dos poemas de Pascoaes. das tranças de Madalena, dum esqueleto branco, dum quadro de Matisse e duma cesta de maçãs sobre uma mesa de pinho, e muita gente calada.

abri o coração a Horácio. Baco. Lutero e a Sancho. doía-me o corpo de tanta palavra coincidente, eram cores demais na aquarela do meu cansaço, deixei que o tempo fosse um fantasma e esqueci-me de sentir.

um polícia intrigado talvez com a minha imobilidade. confundindo-me com uma estátua de neve assoprou-me as pálpebras, abri os olhos abertos num abismo de sombras e moinhos e vi que os seus olhos eram lilases, perguntou-me se estava bem. respondi-lhe que estava louca, e ele sorriu, e disse então boa-tarde.
eu sorri e disse então adeus d. quixote. e o papel azul continuava sem palavras, num esforço último peguei num lápis de carvão e escrevi. Fernando sinto-me tão só. e disse tudo. fechei o envelope, caixão? e um cansaço mortal invadiu-me o corpo que já sentia dormente.
enderecei-me sem remetente e quando a noite chegou veio a carrinha do lixo.

pegaram-me com ternura e assim me despedi da melancolia de sábado à tarde.

[In A mais loura de Lisboa, Lisboa: Difel, 1984, pp. 77-78]


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