segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Dora Ferreira da Silva

DIANA NUA
Ametista rolada em negro céu
silenciosa despenhas no convés desta vigília.
Ao teu lábio abandono o vinho rubro o mel
e o trigo da oferenda.
Corola da altura
deusa em seu trono
tímida e esquiva
embora cingindo a tiara e a branca túnica.

Tocas meu flanco
minha cintura adornas com pérolas frias
e entre tochas pervagas na alta madrugada
trânsfuga do sol exilado nas ilhas.

E as tranças desnastradas
os cabelos desatas sobre minha nudez.
num só corpo amoldadas de pureza tão fria
— rácimos gêmeos do delírio —
as taças derramamos
e os cristais mordemos
entre risos e lírios.

Quando lassas o dorso do equinóxio percorremos
enlaçadas na mesma indolência e nostalgia
o alvo velame da nudez primeira
não-engendrada e sempre fugidia
rompe a muralha da noite
rumo ao mar que principia.
(1970)

[In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 1999, p. 309]



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