terça-feira, 9 de setembro de 2014

Ronald Polito

ENCANTAMENTO
Nem teus passos.
Nem teu peso.
Ou o hálito
como novelo. Ou
a pele feito correnteza.
E um roçar de braços.
Com a prumada do peito.
E já o rosto inteiro.
Não. Nenhuma palavra.

MAS
talvez o que
pudesse acontecer ao
menos uma vez
seria o
desmonte do horizonte
como que um adiante não
mais distante
ou algum ensejo sem desejo
e
suspensa a moenda
a contração do atropelo
o rendimento do bloqueio
somente o presente se erguesse
(como se ergue uma parede)
já então com alívio
sem perspectiva alguma

NO VERDADEIRO CAMINHO
Voar sem trilhos.
Apalpar através dos véus, dos vidros.
Prender-se à superfície do mundo
desprovido de dedos, dentes, cabelos.
Andar até não conseguir chegar.
Construir um abrigo em labirinto.
Insistir no método difícil da ignorância.

UM DEUS
dê-me um minuto
um cajado
um rosto
rotinas para retinas já
então fustigadas
uma cama um dorso
dê-me uma foice
o último terremoto
um touro
o protonauta de neverland
dê-me um sopro

[In Revista Cult, n. 194, ano 17, setembro 2014, p. 13]

SOBRE RONALD POLITO

Photo by JOHN CAVACAS

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