terça-feira, 7 de outubro de 2014

Arseny Tarkovski

PRIMEIROS ENCONTROS
Celebramos cada momento
De nossos encontros como epifanias.
Só nós dois, neste mundo inteiro.
Mais ousada e leve do que a asa de um pássaro,
Desceste, velozmente,
Pela escada abaixo, levando-me,
Através da tua névoa de violetas, para os teus domínios
Por trás do espelho.
Quando a noite caiu, a graça me foi concedida,
Os portões do santuário se abriram;
Brilhando na escuridão,
A tua nudez inclinou-se lentamente para mim.
Ao despertar, eu disse:
"Deus te abençoe!”, sabendo
Estar sendo ousado: tu dormias,
As violetas inclinavam-se para ti da mesinha de cabeceira,
Para tocar tuas pálpebras com seu azul universal;
E as tuas pálpebras, que o azul roçava apenas,
Colinas coroadas de neblina e mares resplandecentes.
Segurando na mão essa esfera de cristal,
Era num trono que dormias
E - Deus seja louvado! - tu me pertencias.
Despertando, modificaste
O dicionário das enfadonhas palavras humanas,
Até que o discurso tivesse nova plenitude e, por toda parte,
Ressoasse com força nova; e a palavra “tu”
Revelasse o seu significado novo: queria dizer “rei”.
Todas as coisas no mundo ficaram diferentes,
Até mesmo as mais simples - a bilha, a bacia -
Quando água estratificada e sólida
Ergueu-se entre nós, como uma guardiã.
Fomos levados para só Deus sabe onde.
Diante de nós, descortinavam-se, como numa miragem,
Cidades feitas de maravilha.
Folhas de hortelã espalhavam-se a nossos pés,
Pássaros vinham acompanhar-nos em nossa jornada,
Peixes saltavam do rio para nos saudar,
E o céu desenrolava-se, acima de nós, como um tapete...
Enquanto isso, atrás de nós, o tempo transformava-se em destino,
Como um louco brandindo uma navalha.

[In Poesia Soviética, seleção, tradução e notas de Lauro Machado Coelho, São Paulo, Algol, 2007, pp. 155-156]

SOBRE ARSENY TARKOVSKI


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