quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Mar Becker

PERSÉFONE
I
penso na mulher que é inacessível como uma estrela de sal. um cálice, uma chaga em backing vocals no cair das horas. penso na mulher que pensa na palavra, e a palavra então se faz aos poucos nas bocas das demais mulheres: e a palavra se faz, com a matéria das flores sonâmbulas e do marfim.

II
sonho ou assédio
lunar,
meninas que se desgarram de si mesmas,
meninas que flutuam como abajures mortuários em torno das bonecas. depois se abaixam para beijá-las na testa e imantar seus corpinhos de pano com relâmpagos.
*
meninas que não falam, magras,
inacessíveis,
tantas meninas, e são altas, e cheiram a algodão e lágrimas.
nos cabelos um nevoeiro de teias de aranha. na pele os sinais em sete eclipses: lua lícita, lisérgica. a sombra no púbis, no ânus, nos covis das axilas. uma única e mesma noite atravessa os séculos pela boca das mães até a boca das meninas,
e das meninas às bonecas,
num processo difícil de perpetuação
da fome.

III
você dormia.
uma tesoura orbitava sobre a área gravitacional
de seu sexo, mãe:
viva, como um híbrido de sangue
e canto gregoriano,
e vimos que você era santa.
*
eu e minha irmã oramos fervorosamente. no sétimo dia, o espelhos arderam
e não pudemos suportá-los.
e não olhamos mais uma para a outra

[In Blog da autora:  deterdeondeseir.blogspot.com]

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