segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Maria do Sameiro Barroso

TERRA ARADA
Compreender as estações vivazes, é repercutir
a serena imagem, em atalhos esplêndidos,
entre nomes, palavras, na terra arremessada, em nuvens,
entre os olhos.
Num fruto, num túmulo, numa flor, repete-se
o céu acetinado que reflecte, no sol, o mesmo véu.
Na harpa dos relâmpagos, repete-se o galope obscuro,
a bússola inesperada, uma túnica de pedra,
uma estátua de azul.

Ontem, num dia, apenas, num só instante,
pressenti, nos coágulos de gelo, a rota cumprida,
a rota quebrada, uma aurora de bruma.
Nas sarças do pousio, um momento de vida
agitava-me.
Num momento breve, a lua ditava a flor perdida,
o eco cintilante, a urdida brancura,
um sonho claro.
Ontem, a minha casa, cofre aromático,
guardava todos os segredos, na ilimitada sombra
que a memória deixou.

Um gesto fixava o rumo, o caminho, o iodo,
o lastro que uma nuvem dissolvia,
num apontamento de frescura que o silêncio
alcançou.

Nos textos da chuva, é a luz que sorri às pétalas
da madrugada arada.
De um pedregoso deserto, onde caminham
as vozes litúrgicas, há restos das açucenas,
do laranjal frondoso do jardim de outrora,
onde a minha mãe cuidava das dálias, dos jarros,
das sebes de murta.
Junto ao poço, havia brincos de princesa,
exuberantes, como a minha infância,
onde guardo, as alquímicas fontes,
a língua exótica, a água fresca

e as joias preciosas do longínquo amor.

(Para a minha mãe.
A memória de meu pai e do meu irmão)

[Poemas da Noite incompleta, São Paulo: Escrituras, 2010, pp. 86-87]. 




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