domingo, 14 de dezembro de 2014

Tasso da Silveira

CANÇÕES À COMPANHEIRA
1
Por que, quando apareceste,
amanheceu em mim?
Quando amanhece na Terra,
e tudo se enche de beleza
e de força fecunda
e de frescor infinito,
é porque as esferas imensas
serenissimamente completaram
nos abismos sem fundo
um passo mais da sua dança eterna.
Por que, porém, quando apareceste,
amanheceu em mim?

2
Eis o que sou neste instante, Amiga:
uma sombra no chão.
Não uma sombra de árvore
sobre o caminho longo,
no qual ainda ressoam passos de passantes.
Não uma sombra leve
de barco na água mansa.
Não uma sombra fresca
de pomar ou jardim.
Mas uma sombra infinitamente perdida.
Como a de um rochedo morto,
ao luar,
sobre a areia infecunda
de alguma enorme, incomunicável Solidão.

[In Poemas, organização e seleção de Ildásio Tavares, São Paulo: Coedição da ABL e Edições GRD, 2003, pp. 130-131].

SOBRE TASSO DA SILVEIRA




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