terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Karl Ove Knausgård

          Quando escrevo isso, já se passaram mais de trinta anos. Na janela diante de mim, mal posso divisar o reflexo do meu rosto. Exceto por um dos olhos, que brilha, e pela região imediatamente abaixo dele, que reflete um pouco da luz, toda a minha face esquerda está na penumbra. Dois vincos profundos dividem minha testa, há um vinco profundo em cada bochecha, todos preenchidos de escuridão, e com o olhar sério e perdido, e os cantos da boca pendendo para baixo, é impossível não considerar triste esse rosto.
          O que ficou gravado nele?
***
          A única coisa que não envelhece no rosto são os olhos. Têm o mesmo brilho no dia em que nascemos e no dia em que morremos. Seus vasos sanguíneos podem se romper, é verdade, e as córneas podem se tornar baças, mas sua luz jamais se modifica, Há um pintura em Londres que, toda vez que vejo, mexe comigo. É um autorretrato de Rembrandt velho. As pinturas tardias de Rembrandt em geral se caracterizam  por uma crueza sem precedentes, e nelas tudo se subordina à expressão do momento, a um só tempo reluzente e sagrado, e continuam sem paralelo nas artes, com a possível exceção do patamar que  Hölderlin atingiu nos seus poemas tardios, não importa quão diferentes  e incomparáveis sejam, pois naquilo que a luz de Hölderlin, expressa através da linguagem, é etérea e celestial, a luz de Rembrandt, expressa através da cor, é terrena, metálica e material, mas precisamente esse quadro, exposto na National Gallery, foi pintado com um certo realismo clássico, mais próximo da realidade, semelhante ao estilo do jovem Rembrandt. Porém, o que o quadro retrata é o Rembrandt velho. É a senectude. Todos os detalhes da face, todos os traços nela impressos pela vida, são mostrados. O rosto é enrugado, cheio de vincos, sem viço, maltratado pelo tempo. Mas os olhos brilham e, embora não sejam jovens, parecem imunes ao tempo que imprimiu sua marca no rosto. É como se outra pessoa olhasse para nós de algum lugar dentro do rosto, onde tudo é diferente. Aproximar-se mais que isso de outra alma humana é difícil. Pois tudo que concerne à pessoa de Rembrandt, seus bons hábitos e vícios, os odores e sons de seu corpo, sua voz e expressão, seus pensamentos e opiniões, sua conduta, suas características físicas e defeitos, tudo que distingue um ser humano de outros, já não está ali, o quadro tem mais de quatrocentos anos, e Rembrandt morreu no mesmo ano em que ele foi pintado, então o que o quadro retrata, o que Rembrandt pintou, é a essência desse ser, aquilo para o qual ele despertava a cada manhã, que logo ocupava seus pensamentos mas não era propriamente um pensamento, que ele sentia primeiro mas que não era exatamente um sentimento, e aquilo que a cada noite o fazia adormecer, até que certo dia para sempre. Aquilo que num ser humano o tempo não atinge e de onde provém o brilho dos olhos. A diferença entre esse quadro e os outros que o Rembrandt velho pintou é a diferença entre ver e ser visto. Isto é, nessa pintura ele se vê ao mesmo tempo que é visto, e sem dúvida só no Barroco, com seu jogo de espelhos, play within the play, a vida no palco e a crença na inter-relação de todas as coisas, quando o engenho humano atingiu um nível jamais visto, nem antes nem depois, é que tal pintura foi possível. No entanto, ela existe na nossa época, e é através de nós que ela vê. 

(Excertos de A morte do pai: minha luta 1, tradução do norueguês de Leonardo Pinto Silva, 1a. ed. - São Paulo: Companhia das Letras, 2013)

SOBRE Karl Ove Knausgård


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