sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Cristina Campo

DOBRANDO O TEMPO,
DOBRANDO UMA ESQUINA

What sorrow 
beside your sadness 
and what beauty
W.C. Williams

Demasiadas coisas receberam tuas pálpebras
a atenção consumiu-te as pestanas.
Demasiados caminhos te repetiram,
apertada, perseguida.

A cidade dos séculos te devora
para ti entrevê, sonho e destruição
de luzes e chuvas, lágrimas já senis
sobre a rapariga que passa
febril, indomável, dobrando o tempo, dobrando uma esquina.

Regressa! Gritam os velhos de Nossa Senhora do Pranto,
a ronda da piscina de Siloé
com os cães, os híbridos, os espectros
que não se conhecem mas que tu sabes
enraizados contigo
na glute azul do asfalto
e crentes em tua flor que arde, branca —

porque todos vivemos de estrelas extintas.

[O Passo do Adeus, Tradução José Tolentino Mendonça, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, p. 59]. 


Nenhum comentário:

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...