sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Gastão Cruz

EM TARDES E CREPÚSCULOS 

Em tardes e crepúsculos marcados
por ferro que esmagava a esperança
revendo tempo como filme ou quadro

antes filme talvez porque continha
o movimento
do que acontece sem às vezes termos

consciência disso
em fins de tarde quando eu regressava
nem sei se do presente ou dum futuro

conhecido tu perguntavas como
seriam esses dias que pareciam
impossíveis mas, já não duvidávamos,

viriam
embora ainda fossem simplesmente
uma espécie de nuvem não direi

negra por ser o óbvio e não seria
porventura essa a cor do que viria,
esse tempo sem cor de que falávamos

quando do que virá  falamos convencidos
de que a vinda
tão temida já nada significa

e afinal é ainda possível
acreditar um pouco no sentido
de palavras ambíguas como  vida

O AR

recordando Fiama e Luís Miguel Nava
no jardim Gulbenkian

Numa tarde que excede já o inverno
busco o lugar de outrora no jardim
onde o ar recupera o dom eterno
de voltar a ser jovem quando o fim

do tempo que domou o seu desejo
o corpo lhe devolve e aquece, ao dia
o entregando; aqui num banco vejo
da mente transportados para a fria

superfície da pedra dois poetas
que sobre ela existiram, suas falas
no ar sobrevivente como rectas
perfeitas desenhando; agora cala-se

o jardim onde apenas a aragem
move a nova folhagem devagar

18 de março de 2011

[In Observação do Verão seguido de Fogo, Rio de Janeiro: Móbile, 2013, pp. 26-27]



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