quarta-feira, 22 de abril de 2015

Adam Zagajewski

DERROTA

De fato conseguimos viver nas derrotas. As amizades aprofundam-se o amor esperto ergue a cabeça. Até as coisas se tornam limpas. As andorinhas brincam no ar instaladas sobre o abismo. As folhas dos álamos tremulam. As aparições escuras do inimigo projetam-se contra a base brilhante da esperança. A coragem cresce. Eles, dizemos deles, nós, de nós, tu, de mim. O chá amargo agrada como uma profecia bíblica. Tomara que a vitória não nos surpreenda.


(Tradução de Aleksandar Jovanović]


FALA MAIS SUAVE Fala mais suave: És mais velho do que aquele que por tanto tempo foste; é mais velho que tu mesmo e ainda não sabes o que é a ausência, o ouro, a poesia. A água suja inundou as ruas; uma breve tempestade sacudiu esta cidade plana, adormecida. Cada tempestade é um adeus, centenas de fotógrafos parecem sobrevoar-nos, imortalizando com flashes segundos de medo e pânico. Saibas que é sofrimento, o desespero violento que sufoca o ritmo e futuro. Entre estranhos choravas, em um armazém moderno onde o dinheiro, ágil, sem parar, circulava. Tu vistes Veneza e Sena, e nas pinturas, na rua, muito jovens, tristes Madonnas, que desejavam ser garotas normais a dançar no carnaval. Vistes pequenas cidades, nada bonitas, gente velha esgotada pelo sofrimento e pelo tempo. Olhos de santos morenos brilhando nos ícones medievais, olhos fumegantes de animais selvagens. Entre os dedos colhias seixos da praia La Galere, e de repente sentias por eles grande ternura, por eles e pelo frágil pinheiro, por todos que ali contigo estiveram e pelo mar, que apesar de poderoso, é tão solitário. Um ternura imensa, como se órfãos fôssemos na mesma casa, para sempre separados uns dos outros condenados a breves momentos de visitas nos cárceres frios da atualidade. Fala mais suave: tu não és mais jovem, o êxtase tem que fazer um pacto com semanas de jejum, Deves escolher e abandonar, engabelar e falar extensamente com embaixadores de países secos e lábios rachados, deves esperar, escrever cartas, ler livros de quinhentas páginas.

Fala mais suave. Não abandones a poesia.



Nenhum comentário: