terça-feira, 14 de abril de 2015

Alejandra Pizarnik

NESTA NOITE, NESTE MUNDO

Para Martha Isabel Moia

Nesta noite neste mundo
as palavras do sonho da infância da morte
nunca é isso o que queremos dizer
a língua natal castra
a língua é um órgão de conhecimento
do fracasso de todo o poema
castrado pela sua própria língua
que é o órgão da re-criação
do re-conhecimento
mas não é o da re-surreição
de algo parecido com negação
do meu horizonte de maldoror com o seu cão
e nada é promessa
entre o dizível
que equivale a mentir
(todo o que se pode dizer é mentira)
o resto é silêncio
só que o silêncio não existe

não
as palavras
não fazem o amor
fazem a ausência
se digo água, beberei?
se digo pão, comerei?

nesta noite neste mundo
extraordinário silêncio o desta noite
o que se passa com a alma é que não se vê
o que se passa com a mente é que não se vê
o que se passa com o espírito é que não se vê
de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
recintos viscosos onde se esconde
a pedra da loucura
corredores escuros
eu os percorri a todos
oh fica um pouco mais conosco!

minha pessoa está ferida
minha primeira pessoa do singular

escrevo como quem sacou uma faca na escuridão
escrevo como estou dizendo
a sinceridade absoluta continuaria sendo
o impossível
oh fica um pouco mais conosco!

as degenerações das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
que fizeste do dom do sexo?
oh meus mortos
eu os comi e me engasguei
não posso mais de não poder mais

palavras dissimuladas
tudo se desliza
para a negra liquefação

e o cão de maldoror
nesta noite neste mundo
onde tudo é possível
salvo
o poema

falo
sabendo que não se trata disso
sempre não se trata disso
oh ajuda-me a escrever o poema mais desnecessário
                que não sirva nem para
                 ser imprestável
ajuda-me a escrever palavras

nesta noite neste mundo

[In Poesía Completa, Barcelona: Editorial Lumen, 2000, pp. 398-400]. 

VALENTIN SEROV

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