quinta-feira, 30 de abril de 2015

Ana Luísa Amaral

SONS, E ALGUMA VIDA
Nunca viveu a sintaxe
de coisa outra
que não fosse um caos
ameaçado

E a ordem
esteve sempre em recessão
desde o primeiro
acaso

Nunca as coisas
de dentro
entraram dentro
em tom propositado

E o sentido
foi sempre sentimento
mesmo quando
ensaiado

Nunca em suma
se obteve
a soma
concluída

Porque a soma
imperfeita
foi o metro
de que se fez a vida

PEQUENA ODE, EM ANOTAÇÃO QUASE BIOGRÁFICA
Bom dia, cão e gata,
por essa saudação e de manhã,
o corpo de veludo, a língua suave,
em simultânea tradução:
bom dia

Bom dia, sol, que entraste aqui,
me ofereces este espelho
onde me vejo agora, e tão de frente,
tornaste um pouco clara a folha de papel
e nela: em faixa transparente,
o tempo

Bom dia, coisas todas que brilham na varanda,
folha de japoneira, o nome cintilante,
o som daquele pássaro,
como se o mundo, de repente,
se fizesse mais mundo, e de maneira tal
que nunca mais se visse
escurecente o dia

Bom dia, gente pequenina
que não consigo olhar desta cadeira,
mas que está: formigas e aranhas,
minúsculos insectos
que hão-de morrer, mas aqui nascerão,
todos os dias

Bom dia, minha filha, igual a girassol,
quantas mais vezes te direi bom dia,
olhando o corredor,
tu, já não de baloiço, mas de amor
e pura filigrana,
eu, quase entardecendo

Bom dia, meu sofá,
onde me sento à noite, e devagar,
as flores que ora não são, ora às vezes
povoam esta mesa, a porta em vidro,
iluminada, em mais pura esquadria,
livros e quadros, curtas
fotografias em breve
desalinho

Bom dia, a ti também,
pelo perfume em fio que me trouxeste,
como se encera um chão rugoso de madeira,
os veios de uma planta desejosa de folhas,
ou mesmo as falhas na paz que me ofereceste,
e que desejo tua

Mesmo no tom cruel
que é acordar todos os dias
para um mundo sem sol em tantas mãos,
mesmo nesse desmando e tão violento curso
que é o mundo,
ainda assim, esta pequena anotação
de abrir os olhos e dizer bom dia,
e respirar de fresco o ar de tudo
em tudo –

DO JUSTO EXCESSO
OU DOS PEQUENOS FURTOS
Um dia, num poema,
ao servir-me do verso de um poeta,
cortei-lhe uma palavra

Não foi por mal que censurei o verso:
a distracção, a havê-la,
foi em puro desvelo,
um sentir-me tão quente e abraçada
que lhe errei o seu espaço
por amor

Não foi por mal,
não pensei que esse verso tinha tantas palavras a cobri-lo,
que uma palavra a menos:
ínfimo cobertor em noite
morna

Mas o espaço sem forma
de o verso lá não estar
podia de entre as pedras
fazer nascer a mais rasante cor,
o justo excesso, e mais por isso ainda,
a terra onde vivemos:

bater quase invisível
de haste de girassol,
abrindo brechas pelo chão
do mundo

Não foi por mal o corte da palavra
no verso do poeta,
nem quem depois olhou o meu poema
viu crime de maior

Mas hoje ainda
o roubo me persegue:
pensar num cobertor de sílabas tão leve
sustendo uma paisagem
com sons e gente
ao fundo

OS MOMENTOS INTACTOS
Recursos de marítimo conforto.
Verde e azul. O voo das gaivotas.
Degraus barrocos, velha habitação
que me utilize os móveis e mantenha
intactas as sombras, alguns cantos.
E por arritmados decassílabos,
todavia correctos na contagem,
limitar a gaivota a sete letras
e o mar a três. Em antiga cabala.

E OUTROS, MENOS INTACTOS
Em torno das ideias, elas dançam
num compasso feroz, descompassado
e belo de sentir. De entre a magia
contundente e clara, anunciam doeres

antecipados. São pequenas clareiras
do instinto, são caminhos de sol
cumprindo o sortilégio da paixão.
E em torno das ideias por fazer

dançam com passos leves e doentes.
Comungadas do fogo que se escoa,
tombam por fim, exaustas e descalças,
aligeiradas dos tambores da mente.

SENTIDOS
De vez em quando,
uma emoção em falso,
a ferida abre-se:
e eles entram solenes,
os meus mortos

Migram dos sítios quentes
onde os tenho de cor,
e as folhas do arbusto na varanda
em frente à minha cama
trazem as suas vozes

E quanto mais a luz é sobre a ferida,
mais eles aí estão

Cobre-as, às folhas,
o cortinado da janela larga,
e o que avisto daqui
é só um gume a verde,
de nem fotografia
porque em dança

Não me assustam
nem gritam, os meus mortos,
só me lembram que a chuva
que agora se insinua devagar
lhes foi tempo e morada,
e eles a mim

Que alguns deles olharam
nesta mesma varanda
as mesmas folhas,
mais jovens e mais verdes,
ou que outros deles viram outras folhas,
mais jovens, mas sem cor

Neste tempo de agora que os não tem,
aos meus mortos,
cresceram pouco as folhas,
e a emoção em que os tropeço, e a mim,
não os fazem nascer

(Tomara o lume
que as mantém em vida
fosse o gume na ferida
de os não ter)


CRESCIMENTO
As minhas duas horas da manhã
transformaram-se
em séculos
de tanto as desejar,
de tanto que as cantei

deixaram de ser minhas
e como filho grande
entram incontroladas pelo tempo,
namoram outros tempos,
outras vozes.

Somadas meias horas,
Dizem-se às vezes três:
súbito casamento consumado
e a casa cheia
em séculos.
 
PEQUENA FÁBULA
DA MORTALIDADE
E lava os dentes como bom mortal,
que a riqueza não paga esse cansaço.
E os olhos eriçados de ambição
confunde-os ele a azul iluminado.

Toma um pequeno almoço que será
um pouco menos torto que os demais,
café, meia toranja, quiçá um sumo
leve de laranja e curtos cereais.

Verá a névoa a desprender-se, suave,
da erva, como pálido vapor?
E ficará em espanto nessa névoa,
como o outro, em esplendor?

Provavelmente, não, mas não se sabe,
sabe-se só que nesse dia sai
e volta aos seus assuntos imortais,
astutos e preclaros e enxutos.

E um dia qualquer, como qualquer
mortal em frente aos dentes e ao espelho,
há-de passar a estado de erva quente,
ou fria, consoante for estação.

Outro virá, noutro espelho em função
menos ou mais acesa. Só a erva,
feliz por ser só erva, ficará,
não se sabendo ela também mortal.

Como de resto tudo o que se encontra
abaixo de uma linha estranha e torta,
que em nós: ausente de definição.
Mas a suspeita existe, se a escutarmos

de um reduto de som. E esse: comum
ao pequeno fulgor que a sustentou.
Dele sobram as folhas enceradas.
Do resto, só o verde. Enquanto existe –

(Em E TODAVIA, Assírio & Alvim, Abril 2015)


DANIEL CHESTER FRENCH


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