quinta-feira, 9 de abril de 2015

Fernando Paixão

A noite é uma fruta costumeira
que sai das mãos maternas.
Aos poucos aparece crescida
nos hábitos da casa.

Certa vez entrou pela janela.
A passos largos distendeu
em vermelho tinto
um sem-número de cavernas.

Mas terminou resignada
igual às outras:
pálpebra escura e grave
sobre as casas.

 x.x

Sentado junto ao fogão
cúmplice da lenha que arde
assisto ao pé do fogo
os brotos infindáveis.

Observo chamas saltadas.
Sorvo delas um líquido boreal
derramado para cima.
As brasas me contam histórias
que logo esqueço.

Envelopes em bolhas de silêncio.

x.x

A candeia acesa sobre a cômoda
surpreende a visão
como o berro dos cães
aos ouvidos.

Chamas e latidos para o alto
despertam
um conhecimento miúdo
e rápido.

Como é grande o mundo...

Inseguro
recolho a atenção
nos frisos do assoalho limpo.

[In Poeira, São Paulo: Ed. 34, 2001]

Fernando Paixão nasceu em 1955 na pequena aldeia portuguesa de Beselga, vindo a transferir-se no início de 1961 para o Brasil. Formou-se em jornalismo pela USP, iniciou e interrompeu o curso de filosofia, e defendeu tese na Unicamp com estudo sobre a poesia do poeta português Mário de Sá-Carneiro. Sua produção literária começou com o livro "Rosa dos tempos", de 1980, seguido de "O que é poesia", dentro da coleção Primeiros Passos, dois anos depois. O autor, no entanto, renega hoje estes dois primeiros livros, por considerá-los “adolescentes”, sem o apuro necessário. Em 1989, retornou com o lançamento de "Fogo dos rios" (Brasiliense), seguido de "25 azulejos "(Iluminuras, 1994). Publicou também "Poesia a gente inventa", voltado para as crianças (Ática, 1996).








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