segunda-feira, 6 de abril de 2015

Gleb Gorbóvski

&
Uma cobra apareceu na cabeceira de minha cama,
pertinho de meu rosto, pálido no escuro.
Eu sabia que, se piscasse,
a baba venenosa desse corpo
escamoso seria liberada. Por isso,
fica imóvel, eu me disse,
finge de morto. Até as quatro horas da manhã
ela ficou lá, suspensa.
Os passarinhos já tinham começado a cantar
e o sol já clareava tudo com seus raios
quando me deu vontade de explodir,
de gritar: dane-se, pare de me torturar.
...Mas a cobra, sem querer esperar por minha cólera,
foi-se embora.


CÉU
Só uma pitadinha dele em minha janela.
Oh, que miséria é esta cidade!
Ou um farrapo de nuvem que se esgueira,
ou a chuva que desaba qual lençol
ou a neve como fibra de lã
obstruindo
a saída de minha toca para o céu.
Lá em cima, as máquinas vão voando
e uma multidão de estrelas se aglomera.
Escura é minha janela e indistinta;
sento-me aqui, gastando os meus lápis,
e um céu secundário construo
na vastidão de minha alma.

&
Botas de borracha. O rio
chicoteia as minhas pernas.
Como estamos longe, você e eu,
como escapar dessa terrível desolação,
dois extremos de uma mesma estrada...

O BOSQUE
Não é feito de madeira
e sim de música -
sons que o atravessam.
Sento-me à sombra de um abeto,
como na cela de uma torre
e meu coração bate forte.
Voo de bétulas,
quietude dos cogumelos
e o sopro da vida em cada célula;
sopro e mais que isso - a luta
pela gota de umidade, como uma bolha,
no livre movimento das raízes.
As asas voejam para longe
de mim que não me movo.

PARA A MORTE DE PASTERNÁK
No meio do século XX
levaram-no à fogueira.
Foi queimado, feito cinzas
para que ficasse leve
como pó e compreendesse
toda a sua nulidade.

Atrevido e terrível era
aquele homem. Em sua testa,
como neve, derretia
a poesia. Mas o fogo desatava
novos versos em seu peito.

No corpo todo. A lenha inflamada
gemia. Em torno dançava,
como numa caverna primitiva,
com um ritmo errático,
toda uma geração.

No céu, a lua morria,
ferida por um foguete dos Urais.

[In Poesia Soviética, seleção, tradução e notas de Lauro Machado Coelho, São Paulo, Algol, 2007, pp. 255-257]

Gleb Gorbóvski, nasceu em Komi, ao norte de Leningrado, em 4 de outubro de 1931. Começou a escrever poesia aos dezesseis anos, no exército. 



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