sexta-feira, 10 de julho de 2015

Rainer Maria Rilke

SALTIMBANCOS

1
Nosso caminho não é mais largo que o teu, freqüentemente calmos de muito alto, também nos arrebentamos, mas a falta de atenção não nos obriga retornar à corda. A ti, qualquer errinho faria morrer. Divertimos com nossos mil erros a morte, espectadora que ocupa a melhor cadeira no circo de nossas desgraças.

2
Façamos como eles: jamais cair sem morrer. Que multidão ao redor de nossa queda! Mas uma criança, meio de lado, observa a corda vazia com, ao fundo, a noite intacta.

3
A corda estava tão alta que aquilo se passava acima dos refletores. Mas logo estava novamente entre nós, em seu traje tão rosa. No alto, havia outro rosa que explicava à noite imensa o absurdo de seu puro perigo movente.

4
Que perfeição. Se fosse na alma, que santos fariam! - É na alma, mas eles a tocam apenas por acaso, nos raros momentos de um imperceptível deslize.

Muzot, 7-11 de agosto de 1924

[In As janelas, seguidas de poemas em prosa franceses, organização e tradução Bruno Silva D´Abruzzo e Guilherme Gontijo Flores, Belo Horizonte: Crisálida, 2009, p. 63]

By Joachim Van Den Heuvel


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