domingo, 20 de setembro de 2015

João Luís Barreto Guimarães

PONTE MÓVEL SOBRE O RIO LEÇA
Imóvel na ponte aberta sobre este porto de mar
queria não ter de esperar que o petroleiro passasse
a vomitar ouro preto nos depósitos da Cepsa.
Olho as margens da tarde em informe ebulição:
o navio japonês veio dar à luz Toyotas
alinhados sobre o cais qual parada militar
(os turistas do cruzeiro aguardam pelo autocarro
que narrará em sueco memórias do Porto antigo).
Do cargueiro africano rolam troncos gigantescos
houve um que caiu à água e ninguém o foi salvar
(decerto não irá longe nestas águas estagnadas
nem poderá ir mais ao fundo).
Corre um vento de norte. Novembro
está dentro do outono. Alguém reuniu o manto
de folhas cerca da ponte mas pelo final do dia
já é outono outra vez. E
distraí-me do cais. Espera. Lá está a marinha.
A fragata da Defesa devolveu homens a terra
meio dia de licença na casa da luz vermelha
(este Natal as meninas vão-lhes dar a provar sonhos
e o porteiro: rabanadas). Se
faltavam desrazões para me obrigar a parar
aqui me têm parado (só re
parando se vê)
qualquer amurada é perfeita para resumir um país
qualquer ponte é ideal para se matar
os tempos.

[In Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2011, p. 240]





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