quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Marize Castro

meu menino parte e eu estou longe
mas não tão longe que não sinta seu hálito
seu arfar, sua alegria

meu rebelde (assim eu o chamava) foi enviado
em uma Iria noite, antes dos relâmpagos

envolto em placenta verde, pediu-me:

rasgue-a, traga-me para este mundo
serei sua liberdade
sua proteção
te guardarei à noite
durante o dia dormirei
aos seus pés
você me amará para sempre
serei seu filho mais alegre
mas também serei sua maior tristeza
em terra estrangeira
quando eu partir, você estará longe
não te deixarei não me ver andar
eu que sempre voei, estarei paralisado

ampliando a eternidade

-0-0-

triste rapaz, quando eu disser
não te amo mais

não acredite

sob meus pés
uma terra estrangeira move-se
um funeral anuncia-se

novamente sou líquida tempestade

estou de novo na primeira floresta
alimentando-me de uivo
granizo
fel

por isso, triste rapaz, quando eu disser
distancie-se
saiba que há um dilúvio
a galope

(este coração está por um triz)
mas também saiba
que te ter dentro de mim
é o que as pessoas neste imenso
mundo chamam
de Céu

[In Habitar teu Nome, Natal (RN): Una, 2011, pp. 46-47].



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