domingo, 5 de fevereiro de 2017

Evandro Affonso Ferreira

*Sei que modo geral desagrada. Vivo tempo todo tentando reparar em vão perdas das boas frases esquecidas. Qual é minha verdadeira necessidade? Escrever é necessário? E amar? Sei que às vezes me escondo atrás de personagem desesperado à procura de grande amor. Jeito talvez de diluir próprias impossibilidades amorosas. Escrever é preciso, viver não é preciso, diriam alhures. Escrever para não ir voluntariamente além do peitoril da janela — refugio-me nas palavras, apesar de vez em quando me saturar delas. Sei que minha literatura necessita do inconcluso, do insuficiente, do insondável, dos longínquos inabitáveis. Possivelmente dos perjúrios também — e das obscuridades. Sei que palavras são minhas ervas enfeitiçadas; são degraus da escada sobre a qual desço ao reino das sombras. Minha verdadeira necessidade? Reinventar amores dentro dos meus livros para disfarçar malogros fora deles."
[EVANDRO AFFONSO FERREIRA, em Não tive prazer nenhum em conhecê-los, Record, 2016]

*Descobri coisinhas com o passar do tempo. Exemplos? Que resignação não afrouxa melancolia; que não há hereditariedade na desilusão; que tédio desnecessita de arrazoados místicos; que minhas derrocadas foram muitas, mas não doeu muito em mim — nos outros sim. Sei também das inutilidades dos possíveis reajustes técnicos da velhice; que não há menor serventia qualquer tipo de apetrecho de guerra para combater imprevisibilidade das surpreendências do acaso; que Morte, inventora da fatalidade, vive às escondidas, de tocaia; que Vida, fonte do transitório, é de ostensibilidade de singular imodéstia. Descobri tudo isso — e mais uma coisinha: que não adianta absolutamente nada querer ser complacente com o imponderável. [Não tive prazer nenhum em conhecê-los, Record, 2016

Eu? Vida toda me afinei pelo diapasão da derrocada, vítima de uma longa interminável entre aspas litania de perdas. No começo parecia aventura adolescente experiência banal mas com o tempo vício maldito aquele foi indo num crescendo lançando combustível ao fogo, e o tal monstro-dependência deitou a mão nele e na família toda espaventada assarapantada; providências inúteis de todos os naipes e rezas e promessas e ameaças e furtos de lá e agressões de cá e muito desespero e finalmente overdose e salto mortal — perdi irmão moço ainda, dezesseis anos se tanto. Agora aqui, vivendo horas soturnas, descendo à gruta de Trofônio, no istmo entre solidão e morte, vítima de vírus malditos que, avassalando bom presságio, não proporcionam de modo algum breves períodos de pausa e trégua.... [Os piores dias de minha vida foram todos, Record, 2014]

Antígona? Para ela, morrer não é sofrer; seria sofrimento, sim, deixar insepulto o próprio irmão. Sabe também que os tiranos dizem-fazem tudo o que bem entendem. Sua morte? Afirmação da vida. Fibras possuídas pelo fogo apolíneo; a mais absoluta de todas as filhas; ave cujo ninho foi destruído. Nunca achou supérfluo ir contra as próprias forças; incapaz de se curvar diante da desgraça; sabe que a lei da morte iguala a todos; juntou à sua desdita a desdita dos que já morreram; encarnação da fatalidade hereditária; dilacerada entre a piedade divina e as leis humanas. [Os piores dias de minha vida foram todos, Record, 2014]

É domingo. Nublado. Vida fica cabisbaixa. Bom dia para morrer. É a melancolia não suportando quem sabe o peso da angústia. Senhor ali trêmulo sendo arrastado pelo acompanhante profissional insiste em viver mesmo sabendo que sua vida agora será apenas de domingos nublados. Assim é o alfa- ômega dela nossa existência: nascemos chorando morremos trêmulos. Escrever para não morrer. O verbo é minha âncora. Meses atrás ouvi senhor judeu na mesa vizinha dizendo sorrindo íngale íngale para seu também decrépito interlocutor. Achei bonito-sonoro. Dias depois num momento oportuno perguntei ao mesmo cavalheiro o significado de tal palavra; criança — ele me respondeu. Desde então, sempre que nos vemos pronunciamos o mesmo vocábulo quase que em uníssono. Esta deve ser a única amizade- íngale existente no mundo entre dois quase octogenários. [Minha mãe se matou sem dizer adeus, Record, 2010]

A  vida é a insônia eterna — ela amiga filósofa me disse numa çuase-quinta. Não me lembro da última vez em que ela esteve aqui; duas semanas atrás talvez; ou nunca esteve. Às vezes invento amigas. Ano passado recebi durante seis meses seguidos a visita de Virgínia Woolf nesta mesma mesa-mirante. Não me lembro não sei se ela me contou como teve a ideia de colocar no bolso do casaco pesadas pedras antes de entrar de vez no rio. Quando penso em Virgínia percebo çne o vocábulo nem sempre é nossa âncora. Ela ficava horas comigo. Evitava falar de Bloomsbury: achava-os enfadonhos. São realmente tediosos todos os grupos literários: vanity fair. Memória fraca; sou decrépito; não me lembro deles nossos diálogos. Ela segura minha mão que segura o lápis; estamos diante da escrivaninha; ensina-me a escrever suprindo-me de palavras, munindo-me de vocábulos para lutar tempo todo contra a vontade de desistir de existir; vogais e consoantes surgem trêmulas; mãe-professora possivelmente de ressaca. Beija minha fronte. Afasto a cabeça reieitando o afago. Gesto premonitório: queria acostumar- me a viver sem mãe. Mais de meio século na orfandade. Vida quase toda sem colo materno — travesseiro que os deuses-do-acalanto fizeram sob medida para cabeças atormentadas. O órfão é caminhante cujo trajeto só tem ida. Vive-se eternamente em alto-mar por falta de porto para se atracar. É ruim viver sem mãe — principalmente sem o adeus daquela que se matou. É ruim viver; principalmente só — falando apenas com elas palavras que nascem a todo instante neste bloco de papel de rascunho que já amanhece inquieto carente de vocábulos. Escrever para não morrer; lavrar para não se matar. Ouço senhora aqui atrás dizendo para cavalheiro possivelmente marido que se arrependeu de ter filhos; que se soubesse que seria tão desprezada faria de tudo para não tê-los; que eles são ingratos; egoístas; seres de pouca qualidade. Interlocutor pondera dizendo que a vida é um relógio de repetição e que se canta sempre a mesma cantiga e que eles também fizeram o mesmo com os próprios pais. [Minha mãe se matou sem dizer adeus, Record, 2010]

SOBRE EVANDRO AFFONSO FERREIRA





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