terça-feira, 3 de setembro de 2019

Nuno F. Silva

Metamorphosis
Que seja alva a morte do poeta
como o silêncio da madrugada.
Mostrem-lhe a luz em graça
pois dedicou a vida
a estudar o relevo das sombras
e tacteou sempre as rosas
pelo lado soturno do deslumbramento

(Nuno F. Silva. In Lunescer. Ed. Lua de Marfim)

INCÊNDIO
E se me arderem todas as expressões
como arde o aconchego da casa?
O que será de mim?
O que será de nós,
que somos seres intravenosamente ligados pelas palavras?
(Pelo temor secreto do poema).
E se no leito de morte
me reacendesses a poesia
como se acendem os cigarros,
voltaria a viver?

(Nuno F. Silva. In. Cativeiro. Ed. Idioteque)

RESSURREIÇÃO
Já escavei as fundações da terra
com os dedos esquálidos,
desci às razões da minha melancolia
para me separar de mim,
assim:
átomo por átomo.
Quis praticar o desapego
do inalcançável e
escondi a fome do impossível
debaixo da sujidade das unhas.
Enterrei o corpo numa cova qualquer
na infertilidade árida das sombras.
E não me encontrei mais
no imaginário das coisas,
no veneno das sensações,
no prisma romântico
da servidão lírica das rosas.

Fui curar as feridas da alma
com o queimor do sol ao morrer do dia,
tornar-me a cicatriz de cinza.
Revelar no sossego
a nova odisseia.

(Nuno F. Silva. In. Cativeiro. Ed. Idioteque)

ELEGIA
Coitado!
Dizem que pariu uma elegia
debaixo do lodo da lâmpada,
na imensidão claustrofóbica do quarto.
A sombra do poema, examinada a raio X
confirmava-o:
Era um nervo soturno da cabeça aos pés.
Como quem se veste sempre de negro,
a fechar perpetuamente o corpo à luz.

(Nuno F. Silva. In. Cativeiro. Ed. Idioteque)


O ANJO EDIPIANO 
Mãe
eu sei
que ainda te doo
como um bicho esquisito
nalguma parte do corpo

Como se, em segredo
nunca me tivesses parido
completamente.

A minha rebeldia,
uma aflição opaca
na tua cabeça.


Em mim
translúcida
só a luz da manhã.


E por vezes
como sabes
nem isso sobra,
nem isso basta.

(Nuno F. Silva. In. Linguagem do Abandono. Ed. Idioteque)

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SOBRE O AUTOR

Nuno F. Silva é um poeta português nascido na maternidade Júlio Diniz, no Porto, em
19 de agosto de 1993. Vive em Paredes.  Completou o ensino secundário na
Escola Secundária de Baltar, que tem como padroeiro o poeta consagrado Daniel Faria, seu
primo. foi também nessa mesma escola que despertou a sua necessidade de criar. Começou por
escrever pequenos contos de fantasia, mas rapidamente sentiu a necessidade de escrever poesia.
Em 2011, então com 18 anos, publicou o seu primeiro conjunto de poemas: Flor de Espinhos.
(pela Corpos Editora). Em 2013 publicou Flor de Lótus (pela editora euedito). Em 2016 surgiram Frágil (pela editora euedito) e Lunescer (pela editora Lua de Marfim. em Março de 2017 surgiu Cativeiro e em Maio de 2018 publicou Linguagem do Abandono, ambos pela editora Idioteque. Em 2019 publicará um novo livro de poemas.









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