sábado, 9 de junho de 2012

Flávio Boaventura


RECEITUÁRIO 

para Francisco Iglésias, meu amigo do peito. 

Caeiro me devolve à terra
Lorca me tira da forca
Gide me divide em gomos
Mann me sopra um ar de montanha
Malraux minha condição assanha
Hesse uivando me eleva à estepe
Camus estrangeiro caminha todo dia comigo
Yourcenar não queixa minha calma roxa
Rosa não deixa minha alma rasa
Sartre vive me responsabilizando
Bandeira tremula na minha cabeça cores
Guimaraens me esguicha as dores
Rabelais me cura de mim
Cecília me dá o braço e passeamos no jardim
Drummond detecta meu avesso
Cabral desvenda meu gemido avulso
Murilo dispara meu pulso.


CENA CINICAMENTE MINEIRA 

Meu pai nasceu semi-árido
minha mãe nasceu semi-ávida
minha irmã nasceu semigrávida
eu apenas nasci

na minha família tudo que nasce
registra-se na madeira covarde
árvore madura de tanta lei
na minha família tudo arde

meus tios estiolados bebiam
minhas tias tísicas de tanta dor rezavam
até o dia esmorecer
depois a noite vomitava estrelas.

Da obra MOTIM, Belo Horizonte: Mazza Edições, 1980, 96p.


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