terça-feira, 12 de junho de 2012

Marly de Oliveira

O PENSAMENTO ABERTO

1. Adsum, Domine. De novo,
enclausurada e feliz,
diante desta paisagem
como num convento antigo,
onde altos muros escondiam
os sofrimento secretos,
mais os secretos caminhos
que levavam a um destino,
de forma tão poderosa
que até hoje o não entendo,
como quem perdeu a rota.

2. Só que já não sou aquela
que aceitava como serva
as imposições do mundo.
Vou percorrer outras terras,
onde se possa lutar
contra setas desferidas,
impiedosos arpões,
estando mais prevenida.
Ou melhor, tão sem cuidados,
que já não seja atingida.

3. Como se fosse possível!
que os desastres, já diziam
os antigos, hão de vir,
ou melhor, se hão de sentir,
sem prévia desconfiança.
Que o destino quando abranda,
nem sempre mais favorece:
como a chama de outra chama
não só nasce, encorpa e cresce;
umas vezes ilumina,
outras, destrói, como o galho
seco, atirado à fogueira,
a alimenta enquanto queima.

4. No entanto, vejo bem claro:
o menos que abandonei
seria suficiente
para abrandar esta pena
que mais cresce quanto mais
se me oculta na aparência.

5. Deslizando sobre a areia
de nenhum céu, não será
este o indício sorrateiro
de uma luz atrás da ponte,
com o movimento perfeito
da praia-leito de um rio,
que corre só na memória
enternecida com o frio?

6. Mas se se visse perdida
a ilusão em que se anda,
do quanto o tento e a firmeza
não bastam para confiar
naquilo em que acreditamos,
se nos dobrava a tristeza;
se nos pesava no dedo
o anel do azul mais turquesa,
o encarnado dos rubis
incrustado em ouro e seda.

7. No entanto, outra é a lei
que comanda que se viva
e conserve altivo o olhar
(bem que de boca ferida),
destronado o sonho, à espera
do que algum dia viria.
Onde estão os servidores,
os afeitos às matinas,
os impérios conservados
pela escrita dos antigos?

8. Velhos mosteiros, histórias
que convocam com paixão
para assembleias mais íntimas,
para desordens mais fortes
que fazem esquecer tormentos
e dão brio a outras batalhas
ainda mais ferozes.

9.  E chega a vez do delírio,
mas ninguém é coroado.
Antes, o sair desgovernado
o leva a estranhos caminhos.
Perdi-me? perdeu-se o rastro?
Ninguém me cingiu de fato
a cintura, o peito, o braço?
Ninguém para me impedir
o previsível naufrágio?

10. Esta a mágica prisão:
esporear um cavalo,
sem brida, um touro, um leão,
sem direito à explosão
que tem na floresta virgem,
se florestas ainda existem
tão perto do coração.

11.  Um cavalo de batalha,
um touro, um leão domado,
iguais na sina (ou no fado),
com clavículas feridas,
sem coragem para a vida.

12.  Ah, como não voltar atrás
no tempo, no espaço, na vida,
a que poderia ter sido
(segundo o poeta) e não foi.
Recolher-se à própria escrita,
como aquele que semeia,
que planta e replanta a terra,
com a força do sangue na veia.

13. Por fazer-lhe honra é preciso
que a defendam os vassalos,
e a amparem, obrigação
tão grande que o arredar-se dela
é não só cometer perigos
como fazer qualquer esforço
que a ninguém aproveitasse
e que a ninguém fosse sensível.

14. Direto à limpidez,
à transparência viva
de alguma gota d' água
sobre a asa de urna abelha.
E encerrar o discurso
que se vai alongando
certa de que está faltando
o que mais importava
ao longo do percurso.


In: O Deserto Jardim, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990, pp. 43-56

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