segunda-feira, 23 de julho de 2012

Daniel Faria

Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
ilumino-a

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em enxame

Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vomito
Volto devagar a colocá-la na fome

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela

E ilumino-a

Explicação da ausência
Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer – fosse abertura –
E a saudade é tudo ser igual.



















Daniel Augusto da Cunha Faria nasceu em Baltar, Paredes, a 10 de Abril de 1971. Frequentou o curso de Teologia na Universidade Católica Portuguesa – Porto, tendo defendido a tese de licenciatura em 1996. Licenciou-se em Estudos Portugueses na faculdade de Letras da Universidade do Porto.  Faleceu a 9 de Junho de 1999 quando estava prestes a concluir o noviciado no Mosteiro Beneditino de Singeverga.
Recebeu vários prêmios literários relativos a inéditos de poesia e conto. Algumas publicações: Oxálida (Porto, Associação dos Estudantes da Faculdade de Teologia do Porto, 1992), A Casa dos Ceifeiros (Porto, Associação dos Estudantes da Faculdade de Teologia do Porto, 1993), Explicação das árvores e de outros animais (Porto, Fundação Manuel Leão, Colecção Fogo das Figuras, 1, 1998), Homens que são como lugares mal situados (Porto, Fundação Manuel Leão, Colecção Fogo das Figuras, 2, 1998) e o póstumo Dos Líquidos (Porto, Fundação Manuel Leão, Colecção Fogo das Figuras, 3, 2000). Colaborou nas revistas Atrium, Humanística e Teologia, Via Spiritus e Limiar.

Nenhum comentário: