terça-feira, 10 de julho de 2012

Hilda Hilst


Vê, Ricardo, se falo tanto do ser feito de terra
É porque o resto é paisagem.
Olhei minha própria carne certa noite. E essa dor
Secular que a recobria. Tu passeavas teus olhos
Revivescendo a ilha, e meus braços castigados
Do gesto de alcançar, buscavam esse tempo de colher.
Mas eu não fui pastora. Há na terra que sou largas artérias
Mas um vento de assomos, um deslumbramento me tomava
E o gesto de plantar cristalizava-se no meu mais puro olhar.
Olhava: A figueira, a pedra umidecida da cisterna
O sol sobre o rosto das mulheres, um rosto semelhante
Àquele barro esquecido de rios. E ubíqua, viajava
Não que ali não deixasse afetos, pássaros da tarde
Cães (viajores de um dia) e presenças quando a noite
De augúrios começava. Uma parte de mim, essa de carne
E ausência, talvez não emigrasse. Os ritos, os de sempre.
Mas o olhar não era o mesmo: Pousava sobre as coisas
Mas as coisas que via não estava.
Fui vista caminhando nos pastos. Nas vides. Muitos disseram
Que o meu corpo estendeu-se sobre a terra e de tal forma
Ficamos confundidas, que as aves descansaram de seu vôo
Na minha fronte de pedra. Adormeci nas paragens de sal
Cantei minha canção no pátio dos mosteiros, atravessei as pontes
Lavei-me nas águas de infinitas nascentes. Mas a boca,
A minha boca fechou-se procurando uma única fonte.

Obra poética reunida,  Hilda Hilst, p. 302

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