quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Fernando Pessoa


ESTÉTICA DA ABDICAÇÃO
[dat. 1913?]

CONFORMAR-SE é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sem¬pre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vence¬dor. Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar. O império supremo é o do Imperador que abdica de toda a vida normal, dos outros ho-mens, em quem o cuidado da supremacia não pesa como um fardo de joias.

[CONSCIÊNCIA DA MISSÃO]
[ms. 21.11.1914]

HOJE, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister, e, por isso, de desprezar a ideia do reclame, e plebeia sociabilização de mim, do Interseccionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Gênio e na divina consciência da minha Missão. Hoje só me quero tal qual meu caráter nato quer que eu seja; e meu Gênio, com ele nascido, me impõe que eu não deixe de ser.
Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose por pose, a pose de ser o que sou.
Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste.
O último rasto de influência dos outros no meu caráter cessou com isto. Reconheci — ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de “lançar o Interseccionismo” — a tranquila posse de mim.
Um raio hoje deslumbrou-se de lucidez. Nasci.
(O Eu Profundo)

Obras em Prosa, Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguillar, 1993, p. 42

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