quarta-feira, 8 de agosto de 2012

João Anzanello Carrascoza


 A ÚLTIMA ESTAÇÃO
No início, fazíamos amor às claras, pelos cantos da casa. Encantavam-nos o sol em nossos corpos suados, a saliva em nossas bocas, o frescor de nossos sexos. Quería­mos ver os músculos rijos, as manobras da ancoragem, o entra e sai alucinante. Ela gritava. Eu grunhia. Jorrávamos palavrões. E, se fosse noite, acendíamos todas as luzes, humilhando o escuro com nossa juventude.
Depois, veio o tempo de nos entregarmos à penumbra, escondidos das crianças. As sombras cúmplices oculta­vam nossos dentes manchados, as rugas que começavam a florescer, os primeiros cabelos brancos. No quarto fe­chado à chave, ela gemia e eu murmurava umas palavras de incentivo.
Chegou, então, a era das trevas. No breu total, esqueci­dos das longas carícias, fechamos agora os olhos e engata­mos silenciosamente, com medo da luz e seu impiedoso esplendor.

In: Amores Mínimos, São Paulo: Record, 2011, p. 125

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