terça-feira, 14 de agosto de 2012

Henriqueta Lisboa

PROCISSÃO
Corpo de Deus!
Bem-vindo 
sejas à terra pelo tempo infindo, 
rochas movendo, corações ferindo,

límpidos sóis e areias
juntando ao mesmo passo nessas veias
pelas quais entre flâmulas passeias.

É a Carne, é o Pão, é o Trigo, 
é a Semente a brotar do solo antigo
para acima das nuvens ter abrigo

no firmamento da alma
que arde do próprio azul, profunda e calma,
sobre os arcos de triunfo e as verdes palmas.

É o Mediador que vem
das paredes de vidro que O retém
para o encontro primevo de Belém.

É o Verbo, o Lume, a Flor, 
o Beijo, o Nardo, o Bálsamo, o Amargor
do que se esquiva ao sangue redentor.

Cante, brilhe, floresça.
Fruto, no seu vergel amadureça, 
mantenha — Cerne — essa floresta espessa.

Pise a pedra que O adora,
beba o olhar que se orvalha à branca aurora,
roce o musgo do peito que O namora.

[Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral,  Duas Cidades: São Paulo, 1985, p. 310] 

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