sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Neide Archanjo


DIVISO AO LONGE
Do mastro diviso ao longe
Proteu e Tristão fantásticos
trabalhando sobre as ondas
em movimentos e ruídos cornucópicos
a colorir o som dos peixes
que resolutos continuam
sua antiquíssima navegação
por mares e cardumes
que tão longe vão
que chegam a alcançar
as costas da minha nostalgia.
Costas fortes e lustrosas
pelas quais deslizam
em meu delírio
cabelos de cobre raios de luar
e incrustados rostos navegantes
painel que o mar pintou em suas falésias.
Outros rostos a esses se juntaram
negros vermelhos amarelos pardos
emigrantes do sal dos mares
coincidência coletiva a nos formar
nós, os brasileiros.

Do alto dos rochedos
esse Brasil me acena gritando
saudades amores
ensolarados orixás
bancarrotas financeiras
convulsões abraçadas
a surtos e moratórias cordiais
e paticumbuns nacionais.
O grande hospício da América Latina me chama.
Será que eu serei o dono desta festa?
Um prazer incomensurável move a nossa loucura
o mesmo prazer testemunhado
em livro do Tombo
esguia torre de pombos
a reservar o segredo
de uma gente recém-criada
ainda fresca de barro
nua e tão contente.
Deslumbrada.

As marinhas (1984)

DO AMOR

Acordo quando falas
e nunca sei o que quero ouvir.
Sei que falas e isso basta
porque esta hora é feliz.
E desejo outras e mais outras
em que dirás tudo o que quero ouvir.

Saudades futuras,

A teu lado caminho quase muda
e estando contente
nunca estou feliz.

*

Não pude ser
o teu amor perfeito
antes esta ferida.

Tudo é sempre agora (1994)

In: Roteiro da Poesia Brasileira - anos 60, seleção e prefácio Pedro Lyra, São Paulo: Global, 2011, pp. 111-113

Paulista, radicada no Rio de Janeiro, Neide Archanjo é formada em Direito e Psicologia. Estreou na poesia em 1964, com o livro Primeiros Ofícios da Memória. Desde então criou e participou de movimentos como "Poesia na Praça", varais de poesia, espetáculos em teatros, cafés, faculdades, bibliotecas, festivais nacionais e internacionais de poesia e arte. Criou e implantou a Oficina Literária da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. Foi bolsista da Fundação Calouste Gulbenkian na qualidade de poeta residente, em Portugal. Seus poemas figuram em antologias nacionais e estrangeiras. É considerada pela critica como uma das autoras mais significativas da geração que surgiu na literatura brasileira na década de 60. Em 1980 recebeu o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte ( APCA) de Poesia. Em 1995 foi indicada para o Prêmio Jabuti, de poesia com o livro Tudo e Sempre Agora. Atualmente é assessora da Fundação Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro.


A obra:
  • Primeiros Ofícios da Memória - ed. Massao Ohno - SP., 1964.
  • O Poeta Itinerante - ed. I.L.A.Palma - SP., 1968.
  • Poesia na Praça - ed. I.L.A.Palma - S.P., 1970.
  • Quixote Tango e Foxtrote - ed. do Escritor - SP., 1975.
  • Escavações - ed. Nova Fronteira - RJ., 1980.
  • As Marinhas - ed. Salamandra - RJ., 1984.
  • Poesia 1964 a 1984 -Antologia - ed. Guanabara, 1987.
  • Tudo é sempre Agora - ed. Maltese - SP., 1995.
  • Pequeno Oratório do Poeta Para o Anjo - Ed. do Autor - SP., 1997





Nenhum comentário:

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...